25/10/2006

Um café?

Eu sentei à mesa de um café bastante sofisticado no Centro da cidade. Era fim de tarde, e fazia um frio danado. Depois do trabalho, eu viera me esgueirando pelas ruas e becos, fugindo da friagem. Trajava calça jeans e camiseta. Nenhum blusão de lã, moletom, casaco, nada. A cada esquina que eu virava, o vento, gelado e forte como um açoite, me castigava o rosto e os braços. A calça já estava colada ao corpo, como gelo à garrafa. Eu me sentia exposto. O sol, pela manhã, parecia forte, robusto, decidido a queimar o mundo. Cedo, no ônibus executivo, o ar-condicionado estava pifado, e a reclamação dos passageiros não cessava. Uma mulher ameaçava espasmos, falta de ar, desmaios. Falava sozinha, é bem verdade. Resmungava. Porque o restante, como eu, logo se acostumou ao bafo e ao calor, mistura que dá bafor. O motorista nem aí. O dia seria mesmo abafado. Mas lá pelas 17h o vento começou, as nuvens chegaram, armou-se uma tempestade. Até o momento em que eu entrara no café besta, o céu estava preto, sem chuva. Acomodado, já com um menu à mão, decidi que eu não queria tomar café. Nem puro, nem com açúcar, nem com adoçante, nem com leite ou creme. Eu queria água com gás, com gelo e limão. Estava decidido. Se o garçom hesitasse em atender o meu pedido, eu o destrataria. E veio ele, se aproximou e perguntou com calma: - Um cafezinho, senhor? Quase perdi a paciência - recobrei a serenidade no último instante, antes do primeiro palavrão. Recusei com um gesto. Queria água com gás, com gelo e limão. Eu vi a sua cara de espanto. Penso até que ele vacilou, e quase argumentou contra o meu pedido. - Muito gelo, por favor. O rapaz nada entendeu. Olhou em volta, como se buscasse uma testemunha que, numa discussão geral, lhe daria razão. "Foi esse maluco mesmo que, com esse frio todo, pediu água com gás, com gelo e limão. Muito gelo, aliás, que eu ouvi direito, porque não sou surdo", diria o observador arguto que defenderia o bom garçom. Anotou o pedido com um garrancho e foi atrás da minha água. Eu sorri e olhei para a rua, pelo vidro da frente do café. Nada de chuva. No entanto, o vento seguia empurrando tudo e a todos. Eu vi um pedaço de jornal voando (ainda há nesse mundo almas caridosas que lêem jornal), arremessado de um lado a outro da calçada. Uma mãe puxava o filho pela mão, a contra-vento, tentando chegar à esquina. Um vira-lata passou correndo, uma pata manca, suspensa. Voltei o olhar para dentro do café. As pessoas estavam embevecidas tomando capuccinos... Então reli o menu. De trás para a frente: os sorvetes, as sobremesas, os doces, as tortas, os salgados, as bebidas, os drinks, uma dezena de opções de café. E iria reler, mas uma sombra se projetou sobre o papel. Quando eu ergui a cabeça, o garçom já havia posto o copo cheio de gelo e a garrafa d'água gaseificada em cima da mesa. Com o outro braço, estendia-me uma xícara fumegante. - Por conta da casa, senhor.

Um comentário:

  1. Anônimo12:16

    Oi Felipe, fico feliz de conhecer este espaço onde poderei ler teus textos.
    Um abraço,

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