ps: quando não houver crônica, haverá livro
pois, como sabe o Lord Henry, do Oscar Wilde, ler é muito melhor que escrever.
Woody Allen por Woody Allen, de Stig Björkman - Editorial Nórdica
Comprei na Feira de Rua do Livro de Florianópolis, por R$ 10, em maio. Melhor que isso, em português do Brasil, só Woody Allen (Companhia das Letras), escrita pelo Eric Lax - tem o Gente de Cinema Woody Allen, de Neusa Barbosa, que não é tão legal (com exceção, claro, da parte que fala do Brasil, Machado de Assis e tal). Bem, esse da Nórdica se trata de um livro-entrevista, conduzido por Stig Björkman, um crítico de cinema e jornalista sueco. Eles conversam sobre cada filme, de Um assaltante bem trapalhão a Um misterioso assassinato em Manhattan. O cara sabe muito do trabalho e da carreira do diretor, então não há perguntas vãs. Mas a coisa vai a fundo mesmo quando o assunto é Interiores, Setembro e A outra. Também em Maridos e esposas, mas menos. No papo sobre Setembro, que o entrevistador considera o melhor até então, a pergunta inicial começa assim: "Setembro pode ser definido como uma kammerspiel, isto é, uma peça de câmara...". Björkman, claro, é um fã confesso de Ingmar Bergman. Como Woody também o é, a coisa flui. Eu prefiro as comédias aos dramas, e os meio-termos às comédias. Crimes e pecados e Hanna e suas irmãs, para mim, são insuperáveis - e Woody revela, no livro, que o seu assunto em Crimes... é a falta de visão (os olhos de Deus que atormentam o oftalmologista interpretado por Martin Landau, o padre cego, a esposa traída etc.). Match point quase chega lá, mas é menos elaborado, apesar do roteiro engenhoso. (Ninguém disse, e eu ainda não li, que tudo acaba bem em Ponto final porque aquilo que o narrador, no início do filme, acha o maior azar do mundo é o que o salva no fim. A história da bolinha de tênis que não cai do "outro lado" quando bate na rede... Ou seja, nem o próprio cara sabe porra nenhuma de nada e acha que tem o domínio da própria vida ao se sair bem daquele jeito...). De volta à conversa Allen-Björkman: a trabalheira que deu fazer o Zelig parecer um documentário rodado em celulose velha, a despretensiosa pesquisa musical que sem querer originou A era do rádio, a dificuldade de substituir Spielberg por Coppola (que não é nova-iorquino) em Contos de Nova York fazem do livro uma leitura surpreendente (ficou clichê, sei, mas você conhecia essa do Coppola?). E eles falam também de Memórias, que eu nunca vi, nem encontrei em lugar nenhum do Brasil. No fim do livro, há a filmografia, com uma lista completa de cada produção, inclusive dos filmes do Woody Allen como ator. Ótimo.
certa vez, no ônibus a caminho do centro, fiquei deprimida ao constatar que woody allen morreria e o mundo ficaria sem os seus filmes anuais. ainda não me recuperei por completo.
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