28/10/2006

Nanopinião 1

O presidente no jardim, de Joel Silveira - Editora Record
Também comprei numa banca da Feira de Rua do Livro de Florianópolis, em maio. Custou R$ 5. É uma coletânea de crônicas dividida em três partes. As boas são as duas primeiras: Nosotros tem relatos de causos de viagens pelo continente americano e Assuntos gerais, de fatos ocorridos no Brasil e no resto do mundo. Material para fazer 3 mil crônicas não falta ao velho. Joel Silveira foi o principal repórter brasileiro entre os anos 1940/60 (o David Nasser, apesar da coragem e do texto brilhante, mentia demais). Viajou o mundo todo, tem muito a contar. Hoje, dizem, vive trancado em casa, gordo, mal anda. Definha, o bom dinossauro. Há uma história tola, mas bacana, que diz respeito a Santa Catarina. Joel foi enviado à região de Blumenau, em 1943, para ver "o que o governo estadual estava fazendo com os alemães que lá viviam". Para fechar a matéria, precisava ouvir o interventor federal (Estado Novo!), em Florianópolis. Depois de muita espera ali no palácio da Praça XV de Novembro, o repórter foi dispensado por um major, pois Sua Excelência "andava atarefadíssimo". Quando Joel estava indo embora, olhou para as janelas do prédio e viu Nereu Ramos distraído, com o olhar para o céu, "perdido num absorto devaneio crepuscular". História boba, né? Até o Joel concorda, mas "o fato é que ela nunca me saiu da cabeça - e não me perguntem por quê". Outra crônica boa é sobre uma reunião secreta entre o Tancredo Neves e o general Ernani Airosa da Silva (da FEB, que Joel conheceu na II Guerra Mundial), pouco tempo antes de o político mineiro assumir a presidência, na casa do jornalista. O fato é que o Paulo Francis aparece e participa do encontro dos dois. No dia seguinte, o mesmo Francis liga do aeroporto, dizendo que estava engatilhado um esquema para ele e Joel ganharem muito dinheiro. E ninguém nunca soube do que ele estava falando, nem do que tratou a reunião, nem de como o autor de Cabeça de negro soube do encontro. Sinistro. A terceira parte, De segundo em segundo, é um amontoado de pequenas histórias, com no máximo um parágrafo de duração, frases e tiradas do autor - algumas bem-sucedidas - e citações. Tem também uma caricatura do Joel feita pelo Nássara que é muito legal. Mas bom mesmo é ler o Joel Silveira da coleção Jornalismo Literário da Cia das Letras.

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