07/05/2009

CJC - Dia 3 - Manhã

A crítica literária em extinção Ivan Marques, professor de literatura da USP, deu um panorama da crise atual da crítica literária na imprensa, reduzida a resenhas e textos curtos que se aproximam, para ele, do release e do caráter de divulgação mais do que da análise das qualidades e dos problemas de um livro. Antes dessa crise, houve duas fases ricas da crítica literária brasileira: - A exercitada a partir da agitação modernista, com as críticas de rodapé de Antonio Cândido e Álvaro Lins, por exemplo. - A crítica dos cadernos culturais, capitaneada em especial pelo surgimento do Suplemento Literário do Estadão, editado por Antonio Cândido. Para Marques, a crítica literária é uma modalidade em extinção. Cristovão Tezza: o crítico terceirizado O autor de O Filho Eterno deu alguns motivos de por que a crítica literária no Brasil não pode ser igual à praticada nos anos 50 e 60. Ele mesmo se intitula um "crítico terceirizado", alcunha sintomática do desaparecimento gradual dos críticos de ofício. Para Tezza, a resenha, de que gosta muito, é o "soneto da crítica". - A literatura perdeu espaço para outras manifestações artísticas na preferência do brasileiro alfabetizado de classe média desde os anos 50: a Bossa Nova, o Cinema Novo, o Concretismo e suas ramificações nas artes visuais, a TV, a internet etc. - Ao mesmo tempo, o mercado editorial se massificou, tentando atender ao maior número de pessoas. - A universidade, formadora dos críticos à moda antiga, em boa medida perdeu o ímpeto da análise crítica do livros, preferindo ater-se apenas à teoria literária. - A internet, que recolocou a palavra escrita em uso e circulação como nunca antes, ampliou o espaço para a recepção crítica dos livros e dos autores, ainda que de maneira caótica e fragmentada. - O crítico de ofício perdeu espaço, nos jornais, para o editor do caderno, que seleciona com critérios jornalísticos o que vai ou não ser publicado, às vezes não levando em consideração méritos literários. O crítico como mediador Manuel da Costa Pinto, colunista da Folha e editor do Guia da Folha, falou sobre o surgimento do crítico literário. A crítica nasce num momento em que a literatura para de comunicar temas compartilháveis por uma comunidade e passa a se focar na experiência e na vivência do indivíduo. É quando dos gêneros clássicos - a lírica, o épico, o drama - surge o romance, por exemplo. O conteúdo das obras literárias passa a ser um "dialeto pessoal", que ergue barreiras de entendimento entre o escritor e o leitor. O crítico seria o mediador entre os dois, tentando decifrar, e se possível explicar, ao leitor, de onde vem e fruto do que é aquele "dialeto". Ou seja, a crítica nasce de uma crise da comunicação. A partir desse momento, a multiplicidade de mediações vai requerer uma organização da recém-fiormada força crítica: a criação de escolas interpretativas, que fazem da crítica quase um novo gênero literário. Para Manuel, o minimalismo da crítica exercida hoje nos jornais - as resenhas, os textos curtos, às vezes telegráficos - não é grave em si, mas sim o fato de que a mediação do crítico entre o autor e o público leitor quase não existe mais - e parece nem precisar que exista. Os suportes tecnológicos novos - internet, basicamente - permitem aos leitores e escritores prescindir dessa mediação. Revistas online, grupos de poetas, pequenas editoras etc. publicam a sua literatura na internet ao mesmo tempo em que produzem, entre si, a crítica desse trabalho. Dessa forma, os tradicionais crivos de avaliação - o avaliador de originais de uma editora, a imprensa, o crítico - perdem cada vez mais a importância. Editor do Guia da Folha, Manuel contou algo assustador em relação ao seu trabalho. Apesar das resenhas que a Ilustrada publica no sábado e o Mais! no domingo, uma pesquisa qualitativa entre os leitores indicou que o Guia da Folha - discas de DVD, CDs, livros - deveria trazer textos ainda mais curtos, assinados por especialistas e indicativos de se o livro tem de ser lido ou não, com ranking de excelente, bom, médio, ruim etc. E assim é.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

 
Clicky Web Analytics