Caro Woody
Escrevo pois, imagine você, a revista BRAVO! me chamou para fazer uma crítica em primeira mão do seu O Sonho de Cassandra. Atendi correndo ao chamado, sempre fico com saudade de você entre um filme e outro.
* por Domingos Oliveira
Penso de você o mesmo que penso de Deus: tenho certeza de sua existência, embora saiba que você não tem a menor idéia da minha.
Faço cinema também. E parecidíssimo com o seu. Também acho que cada plano é um fi lme. Conheço todas as músicas que você usa. Cantarolo na cadeira. Compreendo que você esteja cansado de si mesmo. Também me sinto assim. Na nossa idade, é preciso mudar. Superar-se.
Mas como fazê-lo? Todo grande artista é o espetáculo de si mesmo. Fellini, Bergman, Carlitos, Orson Welles fi zeram, cada um, um fi lme só. Tudo o que fazemos é pas sear por dentro de nossa magnífi ca paisagem interior. Ninguém pode ser um "serial genial", isso é coisa para os assassinos. Temos altos e baixos. Embora isso não tenha grande importância. Quantos anos você tem? 72. Dez meses mais velho que eu. É duro. O tempo passa como um rato na sala. Se tirarmos todos os espelhos da casa, passaremos melhor o dia. Temos obsessão pela morte.
Diz Tolstói: "Um homem que depois dos 40 não tem a morte como sua principal preocupação... é um idiota". Continua aqui.
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