Hoje eu iria apenas escanear a capa do DC Cultura e dar o link da resenha de O homem que inventou Fidel (Cia. das Letras), de Anthony DePalma, no site do Diário Catarinense. Mas vejo agora, na edição impressa, que o resultado ficou... Confuso. Então resolvi publicar aqui no 1 crônica por dia o texto na íntegra, com o título original e uma foto que diz respeito ao livro. É isso.
Herbert Matthews e Fidel Castro
O repórter que a história não absolveu
por Felipe Lenhart*
No dia 6 de março, reportagem de James C. McKinley Jr., correspondente do The New York Times em Havana, descrevia como estudantes cubanos, por meio de um mercado informal de pen drivers e conexões clandestinas de internet, fazem para enviar para o exterior notícias e desabafos que não seriam publicados no Granma. Situação semelhante enfrentou o também jornalista do NYT Herbert Matthews, em 1957, para ludibriar a censura de Fulgêncio Batista. Para sair do país com as anotações de uma reportagem histórica, ele precisou recorrer à imunidade da esposa. Presas à cinta, coladas ao corpo de Nancy Matthews, viajaram as fotos e os apontamentos que comprovariam a existência de Fidel Castro. O relato dos bastidores, da execução e das conseqüências da entrevista com o líder revolucionário – cuja data, 16 de fevereiro, é comemorada em Cuba – está em O homem que inventou Fidel (Cia. das Letras), de Anthony DePalma. Lançada em 2006, a obra ganha atualidade com a renúncia do comandante-em-chefe.
O encontro dos dois se deu numa clareira da Sierra Maestra, após o jornalista ter furado o bloqueio militar da região disfarçado de fazendeiro e passado a noite em claro à espera do entrevistado. Fidel estava escondido com o seu exército estropiado, pronto para mudar a história à bala, mas a versão oficial, divulgada mundo afora meses antes, era de que fora morto, seu cadáver desaparecido nos charcos de um pântano onde ele, Raúl Castro, Che Guevara e mais um punhado de homens desembarcaram do veleiro Granma, vindos do México, sob o bombardeio de aviões do governo.
A reportagem que o NYT publicou na capa em 24 de fevereiro de 1957 mostrava uma foto de Fidel armado e a reprodução da sua assinatura nas anotações de Matthews (com a data da entrevista). No texto, o jornalista escreveu que os revolucionários queriam "uma mudança radical e democrática para Cuba, e portanto anticomunista" e que o movimento “é também nacionalista, o que, em geral na América Latina, significa anti-ianque”. O governo cubano se pronunciou: a entrevista era uma farsa. O NYT então publicou uma fotografia de Matthews e Fidel no meio da mata. A reação foi trepidante. Jovens norte-americanos viajaram à Ilha para se juntar aos heróis da Sierra; setores de Washington ficaram satisfeitos, porque empresários e políticos já estavam desiludidos com Batista (apesar de ser de direita e "confiável", o ditador era corrupto demais, um empecilho ao business); a luta por valores apresentados como os dos Founding Fathers encheu de orgulho a nação que estaria exportando, assim, o seu modelo de democracia.
O furo, talvez a entrevista mais importante do século XX, fez Matthews acreditar que haviam retornado os bons tempos, ele que começara no departamento comercial, subira a repórter, editor, correspondente internacional, repórter especial e editorialista. Mas se a reportagem exclusiva tornara a lhe inflamar o ego, ressuscitara também os questionamentos ao seu bom senso e à sua ética jornalística a partir do momento em que Fidel passou a expropriar empresas norte-americanas, pregar anti-americanismo em seus longos discursos, fuzilar gente ligada ao regime deposto nos paredões... Sobretudo depois que Guevara e Raúl estreitaram relações com a União Soviética. Começou a recair sobre o jornalista a suspeita do engodo: Matthews teria escondido o caráter comunista de um regime instalado a 140 km da Flórida, em plena Guerra Fria.
Para os detratores do veterano repórter, esse tipo de manipulação não seria novidade. Apesar de ser um dos responsáveis por redigir as opiniões do mais respeitado jornal do planeta, Matthews acumulara rusgas com editores e políticos no quesito “editorial x opinião”. No começo da carreira, ele cobrira a invasão da Abissínia pela Itália, em 1935, e a sua admiração por Mussolini ia além das entrelinhas – arrepender-se-ia, depois, do apoio ao fascimo. Na Guerra Civil espanhola – ao lado de Ernest Hemingway e Robert Capa –, diziam, só faltou-lhe empunhar um rifle de braços dados com os comunistas.
O endurecimento progressivo do regime provocou inúmeros problemas para Matthews. Ele passou por todas as humilhações que um jornalista acusado de traição poderia passar em tempos de guerra – o fiasco da invasão da Baía dos Porcos, em 1961, e o episódio da “crise dos mísseis”, em 1962, agravariam a situação: ameaças de morte, investigações do FBI, interrogatórios no Senado, inquirições de toda a espécie, o desprezo de velhos amigos, a desconfiança de antigos patrões. É comovente acompanhar a luta de Matthews em defesa de sua honestidade: o Fidel de 1957 não era comunista e queria sim realizar eleições livres ao assumir o poder. Para ele, os vendavais da História – incluindo a animosidade dos EUA – é que haviam arrastado Cuba para dentro da Cortina de Ferro.
Herbert Matthews e Fidel Castro
O repórter que a história não absolveu
por Felipe Lenhart*
No dia 6 de março, reportagem de James C. McKinley Jr., correspondente do The New York Times em Havana, descrevia como estudantes cubanos, por meio de um mercado informal de pen drivers e conexões clandestinas de internet, fazem para enviar para o exterior notícias e desabafos que não seriam publicados no Granma. Situação semelhante enfrentou o também jornalista do NYT Herbert Matthews, em 1957, para ludibriar a censura de Fulgêncio Batista. Para sair do país com as anotações de uma reportagem histórica, ele precisou recorrer à imunidade da esposa. Presas à cinta, coladas ao corpo de Nancy Matthews, viajaram as fotos e os apontamentos que comprovariam a existência de Fidel Castro. O relato dos bastidores, da execução e das conseqüências da entrevista com o líder revolucionário – cuja data, 16 de fevereiro, é comemorada em Cuba – está em O homem que inventou Fidel (Cia. das Letras), de Anthony DePalma. Lançada em 2006, a obra ganha atualidade com a renúncia do comandante-em-chefe.
O encontro dos dois se deu numa clareira da Sierra Maestra, após o jornalista ter furado o bloqueio militar da região disfarçado de fazendeiro e passado a noite em claro à espera do entrevistado. Fidel estava escondido com o seu exército estropiado, pronto para mudar a história à bala, mas a versão oficial, divulgada mundo afora meses antes, era de que fora morto, seu cadáver desaparecido nos charcos de um pântano onde ele, Raúl Castro, Che Guevara e mais um punhado de homens desembarcaram do veleiro Granma, vindos do México, sob o bombardeio de aviões do governo.
A reportagem que o NYT publicou na capa em 24 de fevereiro de 1957 mostrava uma foto de Fidel armado e a reprodução da sua assinatura nas anotações de Matthews (com a data da entrevista). No texto, o jornalista escreveu que os revolucionários queriam "uma mudança radical e democrática para Cuba, e portanto anticomunista" e que o movimento “é também nacionalista, o que, em geral na América Latina, significa anti-ianque”. O governo cubano se pronunciou: a entrevista era uma farsa. O NYT então publicou uma fotografia de Matthews e Fidel no meio da mata. A reação foi trepidante. Jovens norte-americanos viajaram à Ilha para se juntar aos heróis da Sierra; setores de Washington ficaram satisfeitos, porque empresários e políticos já estavam desiludidos com Batista (apesar de ser de direita e "confiável", o ditador era corrupto demais, um empecilho ao business); a luta por valores apresentados como os dos Founding Fathers encheu de orgulho a nação que estaria exportando, assim, o seu modelo de democracia.
O furo, talvez a entrevista mais importante do século XX, fez Matthews acreditar que haviam retornado os bons tempos, ele que começara no departamento comercial, subira a repórter, editor, correspondente internacional, repórter especial e editorialista. Mas se a reportagem exclusiva tornara a lhe inflamar o ego, ressuscitara também os questionamentos ao seu bom senso e à sua ética jornalística a partir do momento em que Fidel passou a expropriar empresas norte-americanas, pregar anti-americanismo em seus longos discursos, fuzilar gente ligada ao regime deposto nos paredões... Sobretudo depois que Guevara e Raúl estreitaram relações com a União Soviética. Começou a recair sobre o jornalista a suspeita do engodo: Matthews teria escondido o caráter comunista de um regime instalado a 140 km da Flórida, em plena Guerra Fria.
Para os detratores do veterano repórter, esse tipo de manipulação não seria novidade. Apesar de ser um dos responsáveis por redigir as opiniões do mais respeitado jornal do planeta, Matthews acumulara rusgas com editores e políticos no quesito “editorial x opinião”. No começo da carreira, ele cobrira a invasão da Abissínia pela Itália, em 1935, e a sua admiração por Mussolini ia além das entrelinhas – arrepender-se-ia, depois, do apoio ao fascimo. Na Guerra Civil espanhola – ao lado de Ernest Hemingway e Robert Capa –, diziam, só faltou-lhe empunhar um rifle de braços dados com os comunistas.
O endurecimento progressivo do regime provocou inúmeros problemas para Matthews. Ele passou por todas as humilhações que um jornalista acusado de traição poderia passar em tempos de guerra – o fiasco da invasão da Baía dos Porcos, em 1961, e o episódio da “crise dos mísseis”, em 1962, agravariam a situação: ameaças de morte, investigações do FBI, interrogatórios no Senado, inquirições de toda a espécie, o desprezo de velhos amigos, a desconfiança de antigos patrões. É comovente acompanhar a luta de Matthews em defesa de sua honestidade: o Fidel de 1957 não era comunista e queria sim realizar eleições livres ao assumir o poder. Para ele, os vendavais da História – incluindo a animosidade dos EUA – é que haviam arrastado Cuba para dentro da Cortina de Ferro. Um cartão-postal enviado por um leitor, em 1967, quando o jornal anunciara, em texto pesaroso, a aposentadoria de Matthews, é uma amostra contundente do desgaste a que o jornalista fora submetido: “Prezado sr., é com satisfação que vejo o encerramento de sua desastrosa carreira. Bem ao contrário das opiniões volúveis de seus colegas do NYT, você será lembrado pelo apoio à sangrenta República Espanhola de 1937 até [sic] o humanitário Fidel Castro em 1957, somente como: Herbert Matthews, um tolo em quem os tolos acreditaram”. Isso porque Fidel a cada ano dava mais demonstrações de que havia ludibriado o repórter e se aproveitado do seu entusiasmo, pois sabia que uma matéria na imprensa dos EUA impulsionava insurreições na América Latina: José Martí, o herói da independência cubana, fizera o mesmo, em 1895, ao falar para o correspondente do New York Herald.
Para DePalma, a reportagem de Matthews é corajosa e honesta – Fidel é que não fez o menor esforço para dissipar a nuvem de dúvidas que encobria o assunto, pois ao regime interessa preservar a história da entrevista com a mesma cor romântica que ainda prevalece na análise de outros aspectos de Cuba. Basta saber que no Museu Nacional da Revolução, em Havana, há, dentro de uma caixa de vidro, uma foto de Matthews e Fidel fumando charutos e uma surrada máquina de escrever identificada como a que teria sido utilizada durante a entrevista. Não é verdade: Matthews usou papéis de carta dobrados em três para que coubessem na palma da mão – e para que não denunciassem a sua condição de jornalista caso fosse abordado pelos truculentos soldados da ditadura que antecedeu a atual.
*Jornalista
Li no DC de sábado este texto. Agora, através da Suzana Mafra, conheci seu blog.
ResponderExcluirMuito prazer!
Gostei do que li por aqui.
A Suzana me comentou sobre uma citação sobre leitura, do Bloom, que ela encontrou por aqui. Ainda estou procurando. rsrs...
abraços,
Ítalo - Jaraguá do Sul/SC
Muito obrigado, Ítalo! Volte sempre. Um abraço
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