07/01/2008

Dirceu na piauí - no texto, não no lead

Em casa, após o primeiro dia de trabalho do ano, deito-me e abro O Estado de S. Paulo. Confiro as manchetes do primeiro caderno. No de economia, leio matéria sobre a “exaustão” do modelo de venda de automóveis com crédito facilitado, outra sobre iniciativas de blogueiros brasileiros que estão criando “condomínios” de blogs para atrair anunciantes e uma terceira sobre o impacto, no mercado de DVD de alta definição, da decisão da Warner Bros de, a partir de maio, só lançar filmes no formato Blue Ray, da Sony, em detrimento do HD DVD, da Toshiba. Tudo muito bom. Chego então ao Caderno 2, à Sonia Racy, que, além de bonitona, faz a sua coluna Direto da fonte muito melhor do que a Mônica Bergamo. E é no pé da página que vejo o anúncio que me alegra a segunda-feira. “José Dirceu na piauí. Você já ouviu falar. Está na hora de ler.” “É isso aí”, penso. Calço as chinelas machadianas e vou conferir a caixa de correio no hall do prédio. Está lá o meu exemplar. Leio, então, a provável reportagem do mês no Brasil. Chama-se O consultor e tem a seguinte linha de apoio: “A nova vida de José Dirceu, repleta de viagens, negócios, conversas, internet, nostalgia da política e xingamentos em churrascarias e aeroportos”. Estranho, porque não foi por esse tipo de informação que a matéria se notabilizou, ganhou o Congresso Nacional e os cadernos de política – e nem é esse tipo de interesse que atrai leitores e justifica um anúncio de jornal com a insinuação “você já ouviu falar”... Comecei a ler a narrativa de Daniela Pinheiro (Gustavo Krieger, em palestra na UFSC, foi todo elogios a ela - e no pós-palestra também, diga-se), e na segunda página reconheço que já estava desgostando, porque as informações “bombásticas” não chegavam nunca, nunca, nunca... Cadê a denúncia de caixa dois no PT gaúcho? E a insinuação de que Heloísa Helena tinha mesmo um caso com Luiz Estevão? E o juízo de que o Lulinha é um fanfarrão, irresponsável? Só então estalou a minha burrice: eu estava com a piauí nas mãos, a revista mais bem-escrita do Brasil, dedicada quase que inteira ao prazer do texto e às artes do jornalismo literário, e no entanto eu procurava um lead, e lia cada parágrafo, cada página, com a fúria de um copidesque... Ora, a matéria é de primeira. A repórter entrevista José Dirceu num hotel, acompanha o petista na eleição para a presidência do PT e numa churrascaria em São Paulo, embarca com ele para Lisboa, segue com ele para Madri, Santo Domingo e de volta a São Paulo. O fulcro da reportagem: um périplo pelo mundo do homem que, chave no PT e na presidência até 2005, foi cassado e em fevereiro de 2007 sentar-se-á frente a Justiça para se defender no processo do mensalão, de que é acusado ser o “líder da quadrilha”. Eis tudo. Acontece que Dirceu fala bem, e bastante. Lá pelas tantas, na sala de café da manhã do hotel Pestana Palace, em Lisboa, uma “sala em estilo Luis XVI, onde executivos com laptops, à espera do almoço, bebiam vinho branco sentados em sofás de veludo bordô”: “Dirceu atacou facções políticas à sua esquerda. Começou pelo ex-prefeito de Porto Alegre e secretário-geral do PT, Raul Pont. ‘Ele fica falando que o partido não precisa de coligação... Tenha paciência...’, afirmou. ‘O que nós fizemos por esse pessoal não é brincadeira. E eles não ajudam em nada, só nos dão pau.’ Disse que a construção da sede do PT, em Porto Alegre, ‘foi feita só com dinheiro de caixa dois. Era com mala de dinheiro.’” É isso aí. Mas o que vale mesmo é o todo, acredite. José Dirceu sendo vaiado e chamado de “safado” aonde quer que vá é um troço realmente constrangedor. Daniela Pinheiro inclusive mostra, com muita elegância, que José Dirceu mente até para os seus familiares. Muito bom. Agora, não se compara com o relato do périplo do Fernando Henrique Cardoso escrito pelo João Moreira Salles, na mesma piauí. Aí já é demais.

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