09/09/2007

A propósito

No DC Cultura deste sábado, artigo de Regina Carvalho, professora aposentada do curso de Jornalismo da UFSC (minha orientadora na Especialização!) sobre o livro de Tezza.
Literatura Um pai que se constrói Em seu último romance, Cristovão Tezza escreve sobre como aprendeu a amar o filho com síndrome de Down POR REGINA CARVALHO* No mundo há sempre pessoas que estão à frente de seu tempo, para delícia de seus contemporâneos que tenham espírito suficiente para percebê-lo. No Brasil, uma dessas criaturas quase alienígenas foi Leila Diniz, a musa desbocada, livre, leve e solta de toda uma geração. Ao nascer sua filha Janaína, Leila deu entrevista à Revista Cláudia dizendo-se maravilhada por constatar que "a pessoa que mais amo no mundo pode ser também a pessoa que mais odeio". É claro que houve protestos das mais conservadoras - imaginem só se alguma mãe de respeito pode dizer tal coisa! - , mas provocou risadas aliviadas em todas aquelas que uma vez, ou talvez mais de uma vez, tenham desejado jogar o filho chorão, teimoso, inapetente pela janela...
Hoje há pensadores defendendo que o amor materno é um amor conquistado. Não se acredita mais piamente em "instinto materno", e para desmentir tal estereótipo basta que se olhe ao redor: há mulheres que tiveram filhos e não sabem ser mães, e há mulheres sem filhos cheias de generosidade e dedicação... Obviamente o mesmo pode ser dito a respeito dos homens, e da tal paternidade.
Cristovão Tezza é meu amigo há mais de 20 anos, e uma das inteligências mais brilhantes que conheço. Aos 28 anos (acaba de completar 55, a mesma idade de sua mulher), nasceu-lhes Felipe, o primeiro filho, com síndrome de Down, trissomia do cromossomo 21, na época chamada de mongolismo. Para qualquer pai isso seria um choque, ainda mais quando inesperado. Mas para alguém com o nível de inteligência de Tezza, com toda sua criatividade, ter um filho sem condições de aprender praticamente nada pode ser um golpe grande demais para assimilar.
Assim, em O filho eterno, Cristovão Tezza criou um romance autobiográfico, escrito com toda a sinceridade, em que a construção de si mesmo como alguém que vai, inapelavelmente, ser o eterno pai de um filho que jamais será independente é mostrada em todas as suas fases. Porque é disso que o livro trata: é um bildungromans, termo alemão que serve para designar justamente este tipo de romance, em que o protagonista consegue se construir enquanto pessoa, apesar de todas as ciladas e dissabores da vida ou do acaso.
Na primeira dessas fases, a descrença; junto com isso, o desejo de se libertar da carga, pela morte do filho (afinal, mongolóides vivem pouco...). A vergonha que sente do filho, a vontade de fugir (e sabemos que muitos pais de fato fazem isso, incapazes de administrar a situação, e abandonam mãe e filho). Sair de Curitiba e vir lecionar na UFSC proporcionou-lhe esta oportunidade. Ao mesmo tempo, ofereceu-lhe, também, a chance de perceber que não poderia jamais fazê-lo...
A inconformidade com a situação leva-o a buscar o impossível, algo que para um espírito religioso corresponderia a um milagre. Para um ateu, porém, dobrar-se aos ditames do mais puro acaso - nada mais existe, além da ciência - é muito mais doloroso do que aceitar uma interferência divina, e é completamente inaceitável. Acenam com a possibilidade de cura, numa clínica do Rio de Janeiro, e o casal vai até lá, levando a criança. A estimulação constante, várias vezes ao dia, com o auxílio de quem estiver presente, transforma a casa numa clínica e é seguida durante um ano inteirinho, metodicamente. Nenhum resultado se obtém, a não ser, talvez, transformar Felipe numa criança superativa, por ter sido submetido a este excesso de estímulos.
São usados recursos literários simples, como atribuir nome apenas a Felipe, e as outras personagens serem designadas por sua função (a empregada, a professora, a/o médico/a) ou pelo parentesco (o pai de Felipe, a mãe, a irmã, a sogra...). Em cada parágrafo, reflexões sobre cada fato, a imensa capacidade de Tezza - seja pela leitura, seja pela escrita - de utilizar cada grama de conhecimento adquirido em tentativas de explicar a existência, de superar a adversidade, de manter o contínuo e inegável bom humor. E, como já dizia Oswald de Andrade, a alegria é a prova dos nove.
Conheço toda a obra de Tezza, desde o primeiro romance (O terrorista lírico), o infanto-juvenil (Gran-Circo das Américas), um frustrado livro de contos (A Cidade Inventada). Sei que na juventude sempre foi almejado por ele tornar-se um poeta, e acabou desistindo de fazê-lo ao constatar que a poesia não era sua linguagem.
Depois de tentar a narrativa curta, desistiu dela, também. Metódico, persistente, incansável, é um construtor de romances, e leva em média dois anos para terminar um. Já li todos, e considero Tezza um dos maiores romancistas brasileiros, sem favor algum.
Testemunhei a produção de um de seus livros, Giuliano Pavollini, que ia me contando nos cafezinhos do lendário Bar do Básico, nos tempos em que partilhávamos a mesma sala, na UFSC. Isso criou em mim uma expectativa que sofreu um tremendo impacto ao ler o livro: a obra narrada era uma, a obra realizada era outra, apesar de ambas contarem a mesma história. O meio faz toda a diferença. Ao mesmo tempo, tecia uma única crítica aos livros dele, a de serem de um cerebralismo excessivo, pouco temperado pela afetividade e pela emoção, como se temesse soltar as rédeas dos sentimentos.
Acompanhei os últimos 20 anos de vida da família Tezza, Felipe incluído, criatura fantástica que é, e a história de O filho eterno, seu enredo básico, me é por demais conhecida. Ao mesmo tempo, lê-la no livro causou-me um deslumbramento e me comoveu até quase as lágrimas. Ah, dessa vez a emoção está lá, a sinceridade que lhe é tão característica está lá, a capacidade da alegria em meio à mais completa adversidade está lá... A literatura de Tezza jamais voltará a ser a mesma, e é interessante observar a ironia da vida: o grande sucesso de crítica e público que este livro lhe está proporcionando lhe advém do filho que inicialmente não conseguia aceitar, seu filho eterno.
* Escritora, autora de O sapo azul, o sim da poesia (EdUFSC), e A sapinha meiga (Design Editora). Professora aposentada da UFSC

8 comentários:

  1. oi felipe, tudo bom? tens por acaso o email da regininha? queria parabenizá-la pelo lindo texto, mas o email que tenho voltou. brigada. =*
    paula albuquerque
    [paula@polifonica.com.br]

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  2. Anônimo23:26

    Vi o texto da professora no DC mas o li aqui.Agora tambem é que fiquei conhecendo seu blog, caro jornalista.Gostei do artigo, gostei do blog e gostei, quando li
    do Tezza "O ensaio da paixão".Acredito que este lajeano
    já era bom mas agora deve estar melhor ainda. Aos 20 anos eu morava
    em Florianópolis (tenho a idade do Tezza) e ouvia falar da turma que encenava a paixão de Cristo nas areias da Lagoa da Conceição, cenário/contexto daquele livro desse catarinense. Junto com uma dúzia de barrigas-verdes Tezza está abrindo espaço e mostrando o talento para o Brasil e no
    exterior. Pretendo adquirir "O filho eterno" .Penso que, "tidos e nos achando normais", precisamos ser despertados por uma obra importante quanto "O filho eterno". Talvez aprendamos a olhar e a abraçar como sabem olhar e nos abraçar, as pessoas que tem a síndrome de down.Fatima de Laguna.

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  3. Paula, o e-mail que eu tenho dela é um do UOL, antigo, da época da pós, e não funciona mais. Talvez lá no Curso de Jornalismo alguém saiba informar. O telefone é 331-6595. Obrigado pela leitura, boa sorte e volte sempre.

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  4. Olá, Fatima! Muito obrigado pela visita, pela leitura e pelos elogios. Confesso que nunca li um livro do Tezza, mas o conheço pessoalmente, via regina Carvalho, inclusive, e o achei muito simpático. De qualquer forma, acho que este O filho eterno está tentador demais para deixar de ler. Vejamos.

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  5. Oi! Gostei muito do texto da Regina e fiquei curiosíssimo pra ler a obra. Aliás a Regininha é uma pessoa e profissional formidável - foi minha professora de redação no jornalismo e com ela aprendi lições preciosas. Mas sou obrigado a fazer um reparo importante, na condição de quem já teve um irmão com Síndrome de Down - faleceu em 1999, aos 46 anos. Ela está equivocada quando diz "...sem condições de aprender praticamente nada...". Os Down aprendem, sim. A vida inteira. Com suas dificuldades naturais, claro. São surpreendentes em sua maneira peculiar de ver o mundo, com alegria e espontaneidade. Meu irmão Leopoldo aprendeu a conversar, ler, escrever, pegar ônibus, tomar banho e atravessar a rua sozinho, entre tantas outras coisas - e dançava melhor que a maioria das pessoas que já conheci. Gostaria de deixar essa correção registrada aqui como uma pequena contribuição pra que a gente procure conhecê-los melhor.

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  6. Muito boa observação, Dauro. Registrado. Um abraço!

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  7. Regina é uma das pessoas mais doces que tive a felicidade de conhecer. Assim como o Dauro, fui aluno dela na UFSC, bem calourão, e do pouco que sei muito devo a seus sábios ensinamentos. Salve, mestra!

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  8. Anônimo20:31

    Dauro, eu disse "praticamente nada", porque perto do que uma criança dita "nornal" aprende e um com síndrome, há um fosso imenso... Imagia alguém com a genialidade do Tezza esperando ensinar mil coisas pro filho, e não passando do trivial... E mesmo este trivial tem que ser repetido mil vezes, por causa das limitações da memória... Felipe só escreve seu nome, e assim mesmo, pra assinar sua telas (maravilhosas!)Quer dizer: ele pinta muito, e tanto copiou a assinatura que acabou por gravá-la... Imagina o que é isso prum escritor...E foi superado, e lindamente... Não há ofensa alguma: só a relativização necessária. O livro tá lindo, vai ser traduzido pro italiano, e há outros países europeus interessados. Tezza tá muito feliz!
    Ah, aquela coletânea tá quase saindo, o Unibanco vai financiar uma grande edição. Agora coleto contos e poemas eróticos. Tens algum?

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