12/06/2007

Felicidade para os olhos

A crônica abaixo saiu na revista Donna DC, do jornal Diário Catarinense, domingo passado. É de autoria do jornalista e escritor Mário Pereira, que já lançou três livros de ensaios e um de contos. Na Unisul, ele me deu aulas de redação e edição. Lá, ele foi o mestre de muitos estudantes. Para alguns, foi tutor. E uma de suas paixões entre as muitas que se pode ter no âmbito do bom jornalismo, no nível da excelência do texto de imprensa, é a crônica. Além de leitor criterioso dos melhore cronistas – tanto os de hoje como os de sempre –, organizou quatro volumes de crônicas dos seus alunos em parceria com Francisco José Pereira, da Editora Garapuvu. Pois bem. Para minha feliz surpresa, o leitor atento fez-se cronista. Mario Pereira escreverá uma vez por mês no mesmo espaço.
Melhores momentos
O duque de Devonshire cabeceava de sono durante uma modorrenta sessão da Câmara dos Lordes quando um orador mencionou que a Inglaterra, naquele final de século 19, vivia um dos seus melhores momentos. O duque abriu um olho, voltou-se para o colega que estava sentado ao lado, e sussurrou: "Meu melhor momento foi quando o meu porco ganhou o primeiro prêmio na feira da aldeia de Skipton". Dito isso, bocejou longamente e mergulhou de novo no seu cochilo enquanto os seus pares debatiam os graves assuntos do império britânico, onde naquele tempo o Sol nunca se punha.
O episódio é relatado por Barbara Tuchman no livro A Torre do Orgulho em que retrata o mundo nas duas décadas que antecederam a Primeira Guerra Mundial. O duque - revela a historiadora - era um dos homens mais ricos e poderosos do império. Ele já perdera a conta de quantas vezes fora ministro e de quantas missões oficiais chefiara no exterior. Recebera todas as condecorações e honrarias possíveis. Mas o melhor momento da sua vida, que já ia longa, devia-o a um porco premiado na feira da aldeia vizinha ao seu castelo ancestral.
Lembrei a história do duque e seu porco dia desses quando, em conversa de cafezinho, um amargurado amigo queixou-se do filho adolescente. "Ele ficou agressivo, debochado e mentiroso. Passa mais tempo na rua do que em casa, e não quer mais estudar. Não sei o que fazer". Então, com um profundo suspiro: "Pensar que o melhor momento da minha vida foi quando ele nasceu."
Melhores momentos, todos temos os nossos. Há os piores também. Desses, convém nem falar. Para quê? Mais tarde, em casa, pus a memória a perseguir os meus melhores momentos. Ao contrário do velho duque, eu os tive mais de um. Foram muitos, e por isso sou grato à vida.
Eu e o velho aristocrata inglês ao menos tivemos algo em comum. Os nossos melhores momentos foram devidos a prazeres muito simples e não às "glórias do mundo". Um simples porco propiciou ao duque rico e poderoso o seu melhor momento. Devo um dos meus melhores momentos a dois cachorrinhos vira-latas que resgatei das ruas e a um pôr-do-sol.
Caminhávamos os três pela praia ao entardecer de um frio dia de Outono. Os dois saltitavam ao meu redor, e disparavam para cá e para lá, embriagados de alegria e liberdade. Não havia vivalma à vista. O mar, as dunas, a faixa de areia que se perdia na distância. Toda aquela imensidão era só nossa. O Sol começava seu mergulho, avermelhando a água e tirando chispas do oceano.
Sentei no cocuruto de uma duna para curtir a insuperável beleza de um crepúsculo à beira-mar. Billy e Bibi juntaram-se a mim. Ele espichou-se aos meus pés; ela enroscou-se em meu colo. E ali ficamos os três, mudos, estáticos, os olhares grudados no horizonte enquanto a enorme bola vermelha tocava a superfície da água, que parecia incendiar-se ao seu contato, e aos poucos foi sendo engolida pelo oceano até sumir de vez.
Então, cada um de nós, à sua maneira, aplaudiu o Autor deste espetáculo que está em cartaz desde o começo dos tempos. Bibi e Billy, latindo e correndo de um lado para outro, felizes; eu, erguendo a Ele uma prece silenciosa pela graça de estar ali em tão cálida companhia. Enquanto trotávamos de volta para casa, deixando nossas pegadas estampadas na areia úmida, decidi que aquele fora um dos meus melhores momentos, entre muitos outros que até então tivera a felicidade de viver.
Nesses tempos mais recentes tenho constatado certa escassez de melhores momentos. Ao menos para pessoas decentes, que respeitam a si e aos outros, esforçam-se para trilhar o reto caminho, cumprem a lei e honram as suas obrigações. Para gente honesta é difícil viver numa terra onde a corrupção rola em escala industrial. Terra do Mensalão, do Furacão, da Navalha, da Moeda Verde, do Caixa 2 e afins.
"Aqui se conjuga o verbo roubar em todos os modos, pessoas e tempos". A frase que o Padre Antônio Vieira escreveu sobre o Brasil no século 17 continua atualíssima neste século 21.
Pensando bem, meus melhores momentos, ultimamente, são quando estou dormindo. Neles posso sonhar com outros tempos e outros momentos em que nós, o povo, fomos mais respeitados e felizes. Tempos em que nos mentiam e roubavam menos.

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