Na partida que eu gostaria de assistir quarta-feira que vem, no Estádio Olímpico, na final entre Grêmio e Boca Juniors, pelo menos duas ambulâncias ficariam à beira do gramado, ao lado das casamatas, com enfermeiros e paramédicos prontos para atender e, se preciso fosse, deslocar os deslocados, fraturados, estrebuchados peladeiros. Mano Menezes usaria um megafone para passar instruções aos seus atletas, fora da área técnica, quase dentro do campo de jogo, sob o olhar complacente do bandeirinha, do quarto juiz e dos delegados da Conmebol. Os jogadores, atentos às determinações do professor, enfrentariam o adversário com a cara de um cão bravo e a frieza de um carrasco francês. O Boca Juniors, ó Maradona, teria sérias dificuldades para trocar passes, e só raramente passaria do meio-campo. O goleiro Saja, único argentino do estádio a torcer por um triunfo brasileiro, faria esforços tremendos para sem manter aquecido, já que pouco ou nada veria a bola. Aos 35 minutos de jogo, o Grêmio estaria vencendo por 2 a 0. Aos 43, o atacante Carlos Eduardo receberia um pontapé no joelho de um zagueirão xeneize já dentro da grande área. Na cobrança do pênalti, efetuada pelo capitão Tcheco, a bola bateria nas duas traves antes de entrar. Eis o jogo empatado. Eis a dimensão da alegria. Então, Riquelme poria a mão na cintura e diria aos companheiros: vou-me à pelota. Tarde demais. O primeiro tempo terminaria antes que ele pudesse armar um totó de gênio. A festa ocuparia as arquibancadas do Monumental durante o intervalo, o hino de Lupicínio Rodrigues rimbombando nos alto-falantes. Ao pé do ouvido, os locutores das rádios condicionariam as massas: “Falta só um gol, falta um golinho para o Grêmio sair campeão...”. Ah, na partida que eu gostaria de assistir quarta-feira que vem, o segundo tempo arrancaria do fundo da terra o mais gremista dos defuntos. O Boca Juniors atiraria-se desesperado ao ataque, disposto às maiores audácias, inclusive cambiar o orgulho portenho por um gol de chiripa. Surpreendidos, aturdidos com aquela postura inesperada, os titulares do Grêmio começariam a correr feito animais treinados. Cada bola seria a bola do jogo. Cada dividida, a última dividida. A Geral do Grêmio passaria a surrar com mais força os seus tambores de guerra, a charanga tornaria-se mais vibrante. E os telespectadores chegaríamos aos 40 minutos do segundo tempo observando os zagueiros do Grêmio desfechando balões para todos os lados, chutões para frente e “bola pro mato, pois o jogo é de campeonato”. Os comentaristas da Globo certamente criticariam com veemência o jogo feio, a ausência de futebol-arte na banda azul-preto-e-branco, e os da Sportv não poderiam deixar passar incólume aquele anti-jogo ululante, merecedor de cartões amarelos por parte do árbitro colombiano Oscar Ruiz. Nos descontos, aos 48 minutos, a bola redentora, cabeceada por Ramon num cruzamento de contra-ataque, causaria uma hecatombe em Porto Alegre. Pobre do velhinho cardíaco. Ao apito final, mais da metade dos heróis do título sairiam de maca, exauridos. Grêmio campeão. Na saída do estádio, os camelôs estariam vendendo as primeiras cópias do dvd “Libertadores 2007 – uma saga Imortal”. E eu não dormiria nunca mais.
15/06/2007
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