10/05/2007

Nonsense

A corda deslizou levemente, como brisa, feito sopro, no pescoço do Infeliz.
Clemência o encarava de longe. Balançava a cabeça, negaceava. Estava de chinelas, bata puída, pedaço de corda argolando a cintura. Machadiano, Claudio Frollo sem maldades, nenhum Quasímodo a sustentar (nem nos bolsos, nem nos ombros). Com dificuldades, segurava um livro debaixo do braço esquerdo, e não era a Bíblia. Eram poemas de benevolência, poesia indolor e ineficaz. Uma algema prendia suas mãos às costas.
Perto, de binóculos, o soldado também assistia. Um bravo de Waterloo, boina verde à Stallone. Olhava e pensava consigo que o mundo é mesmo um battlefield, minado de brinquedos explosivos, recheado de agulhas incisivas. Um tabuleiro de War II a explorar e ser conquistado, peças vermelhas contra azuis, briga ferrenha de dados. Por via das dúvidas, mantinha no coldre um 38 de policial. Eficaz em caso de pânico.
A Massa, claro, a tudo via. Reunida, compactada, espremida em praça pública. Olhos e lábios abertos, baba e passividade bovinas. Exclamava, bradava, inquietava-se, sem se mexer, mover um pé. Hipnotizada: o jornal a informara, a televisão a convidara. Quando fazia silêncio, um raro momento, podia-se ouvir o vendedor de pipocas.
A comandar a festa pública, mestre-de-cerimônias com a corda na mão, do alto do cadafalso, Miss Felicidade. Empertigada, metida em roupa bonita, uma bela flor na lapela, sorriso de Coringa rasgado na face. Os sapatos brilhavam lustrosos, a fivela do cinto à mostra. Era um contente a olhar um pobre-diabo. Um bobo a intimidar um cético. Enquanto ria, fumava um cigarro. Quando escarrarou na multidão, o chão do patíbulo finalmente cedeu. Fez-se o show.
Massa, o rosto sujo de cuspe, urrou ao ver a cena. Ideal balançava ao vento.

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