A mulher daria um perfil para a piauí. Era inteligente e esquisita, feia e deselegante. Pitava um cigarro barato, tinha os dedos sujos de nicotina e fumaça. Estava sentada no banco do ponto de ônibus quando eu cheguei e foi logo olhando a minha cara e dizendo sem cerimônia: Como vai, meu chapa? Eu respondi como quem rebate, sentando-me ao seu lado: Tudo bem, senhora. Que bom, completou ela, dando mais uma tragada. Seu rosto era fino e comprido, coberto quase até a metade com uns óculos escuros antigos, daqueles que começam negros e, embaixo, são meio transparentes. Cabelos louros, crespos e desgrenhados, nem longos nem curtos. Pela forma como me abordou, lembrou-me uma personagem do Hemingway, aquele "chapa" de boxeador ou veterano de guerra fechando o cumprimento. Mas, olhando bem de perto, ela tinha mesmo o aspecto de um jogador de futebol argentino depois de uma partida extenuante. Estávamos sós, e ela queria papo.
– Passou bem o feriado, rapaz?
– Sim.
– Passeou, aproveitou...
– Trabalhei.
– Trabalhou!
– É...
– Mas no dia mundial do trabalho você trabalhou! Em que você trabalha?
– Jornalismo.
– Ah... em jornal?
– Não.
– Por conta própria?
– Er... sim.
– E me diz uma coisa: como acabou aquela história do supermercado que pegou fogo?
– Olha, o que eu sei foi o que saiu nos jornais: que destruiu boa parte e que o rapaz morreu...
– Sim... ele cometeu suicídio, né? A minha empregada disse que o rapaz foi traído pelo chefe, porque tem uma esposa acamada com câncer, em estado terminal.
– Não sei disso, não.
– Pois é... você lê que jornais? DC...
– E o estado de são paulo.
– Ah, pensei que fosse só café pequeno...
– Tem de ler pelo menos dois...
– Você não gosta de matéria de polícia, pelo jeito.
– Não, não gosto.
– Também, é masoquismo, né? A minha empregada gosta.
Nesse momento o ônibus chegou. Outras pessoas estavam de pé, também à espera, de certo ouvindo com interesse a nossa conversa inusitada. Formou-se a fila, a mulher jogou o segundo cigarro longe, ajeitou os óculos escuros na cara e entrou. Subi atrás. Já não nos falávamos. Então, como quem encontra um velho amigo, ela disparou para o primeiro senhor que estava num banco da parte da frente, sentando-se ao seu lado, abrindo caminho para a fila rodar a catraca:
– Como vai, meu chapa? Passou bem o feriado?
Nenhum comentário:
Postar um comentário