Há um segurança que patrulha a rua em que moro todas as noites. Está sempre só, com um porrete pendurado na cintura. Veste calça cáqui e casaco preto. É negro ou mulato, não sei dizer ao certo, pois todas as vezes em que o vi foi de passagem, de dentro do carro. O que sempre fiz foi levantar a mão, num cumprimento, tentando ser cordial. Ele respondeu com um sorriso em todas as oportunidades. De qualquer forma, é uma pessoa que esqueço com facilidade. Vejo-o agora, esqueço-o ali, no minuto seguinte. De vez em quando, quando eu e a Jade estamos na cozinha, jantando, o janelão aberto à brisa noturna, o silêncio é quebrado pelo seu apito vigilante. É o alarma: estou aqui, zelo por vocês, que Deus me ajude. Minha vontade é descer e apertar sua mão, dizer “lembrei-me”. Não faço nada, sigo comendo, conversando, até que o próximo silvo me belisque a consciência. Um gole a mais de vinho e volto à letargia. Assim é todo dia.
Ontem, porém, o apito do homem soou diferente. Eu e a Jade chegamos, e no hall de entrada havia uma carta da síndica pendurada no espelho, exposta ao olho geral. Pois o nosso segurança está na pior. Sua casa queimou inteira. A polícia desconfia de que o lar do nosso polícia foi vítima de um incêndio criminoso. Ele perdeu tudo, veio ao Dona Lídia com a garganta e os olhos apertados. Explicou a situação, reconheceu que perdeu tudo e, no seu desespero, apresentou até Boletim de Ocorrência. A carta, como a visita, é um apelo. A síndica revela que o condomínio tem uma sala fechada com pertences velhos e abandonados dos moradores. Pede que todos revirem esse baú de tralhas, em busca de doações. Exclama dor, penalizada, e pede ajuda em nome do vigia.
Somos novos na vizinhança. Não possuímos nada na dependência comum dos objetos esquecidos. Mesmo assim, a Jade reuniu comida e roupas nossas para dar ao trabalhador: uma doação que talvez nos faça falta, mas que certamente lhe será um alento. Sábado o homem aparecerá para recolher tudo. É claro que me espanta essa solidariedade despertada apenas quando a tragédia alheia nos bate à porta. Mas também penso cá comigo que é bom que ainda tenhamos certa compaixão. Mesmo que ela esteja escondida sob goles de vinhos.
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