08/04/2007

Uma data: há um ano, uma noite

"Surge a alvorada folhas a voar e o inverno do meu tempo começa a brotar, a minar"
Cartola
"Tem de tudo em uma festa de casamento: o que deseja a felicidade do casal e a que torce para que a noiva caia da escada."
Luiz Carlos Prates
"Weddings make a lot of people sad But if you're not the groom You're not so bad!"
Todos dizem eu te amo, de Woody Allen
"Vitality shows in not only the ability to persist but the ability to start over."
F. Scott Fitzgerald
Eu caminhava em círculos diante do altar improvisado. O Jaci me olhava nos olhos, e os olhos dele sorriam. Depois eu reparava a boca dele e ela sorria também. Dizia "Tá nervoso, hein, bicho?" e o brinco na sua orelha esquerda brilhava. O clima era bom, de feliz apreensão, tensão acolhedora. Respirava-se fundo à minha volta. E eu em círculos... Ainda em mim, mas cuidando a porta, os olhos das pessoas de que gosto. Muitas que eu amo e de quem sinto falta, e que me fazem bem quando ligam, me dizem bom dia. Gente que precisava estar ali para me ver suar e andar nervoso, rir da orquídea branca que o meu padrinho pendurara na lapela do meu terno caro. Procuro em volta, tudo é mancha, vago. Cadê o fotógrafo? Então, a música. E eu estaco.
Os olhos do Felipe eu conhecia há tempos – oito anos, precisamente -, mas, daquele jeito, com aquele brilho e aquela certeza, eu nunca tinha visto. Quase molhei os meus diante daquela paisagem, sobretudo quando o primeiro acorde trouxe os versos de poema do Cartola. Dei as mãos para o meu pai, ensaiei o primeiro passo, embaralhei as regras do buquê: esquerda ou direita? Suspirei; agradeci cada taça de champanhe anterior, certa de que a felicidade seria insuportável com um pingo a mais de lucidez. Então, todos os primeiros erros ficaram para trás; junto deles, a descrença, a desesperança, a dor, toda a dor. Se ainda restava alguma sombra, ela se dissipara naquele instante: o inverno do meu tempo começava ali, naquela noite quente de abril, com quarenta minutos de atraso na cerimônia, com alguns anos de atraso em relação à própria vida. Depois daqueles passos, seria só agradecer.
Cartola! O suor congelou no meu rosto. Passei meses imaginando que música a Jade escolheria para ser o tema daquela noite. Surpreso, ouvidos enlevados, saquei o Jaci – ele estava de olhos fechados, um riso rasgando o rosto virado para cima. Lembrei das primeiras noites, reconhecendo-se ao tato, deitado no chão da sala da casa, ouvindo o Angenor, recém-apresentado a mim por ela. Eu jamais tinha escutado Ensaboa, e fiz de Agenor o som ambiente do churrasco do meu aniversário de 2004. Mal lembrei isso tudo quando ouvi "ahs" e "ohs" e me dei conta. Respirei fundo (minha vez), sem um passo a mais, dei meia volta e vi que lá vinha ela, linda de branco, ao som do crioulo. Agora, o presente retomava o seu prumo, e a verdade restabelecia a história.
A cerimônia parece ter durado apenas o tempo do sim. O calor quente que derretia tudo não poupou nem a maquiagem nem o coração; ao fim de alguns segundos já me sentia estrangulada por alguma coisa impossível de nominar. Com as mãos suadas, percebi, compreendi com ainda mais clareza todas as marcas passadas. Havia sentido naquilo, sim, havia tanto sentido quanto jamais deixei de acreditar. Busquei algumas pessoas, Tânia, Maria Luiza, Cris, Camila; encontrei quem nem imaginava, Tane, Maurício, Scotto, Andréia. Em meio ao falatório distante e à benção sempre presente, como um abraço prolongado, senti falta de gente que jamais seria paisagem de novo: meu tio, minha prima, meu irmão. Já não conseguia mais lamentar, porém: tinha tudo o que de fato importava.
A festa foi tão boa que esquecemos a certidão de casamento. No táxi, até o hotel a Jade chorou no meu ombro. Não houve noite de núpcias. A champanhe e as frutas ficaram intactas, e as pétalas de flor murcharam com o nosso sono cúmplice. Voltamos da lua-de-mel direto para a nossa casa, em Coqueiros. Há um ano. Felipe e Jade Lenhart
Fotos do casamento! Mais fotos do casamento!

5 comentários:

  1. Amei o texto!

    Que bom que nos encontraremos para comemorar esta data tão legal!

    Beijos para vcs dois!

    Rafa

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  2. Posso confessar...
    Chorei de novo lendo o texto!
    Assim como chorei de emoção ao ver minha linda amiga entrando ao som de Cartola e dizendo sim ao homem da vida dela!Diga-se de passagem, ainda não vi noiva mais linda que Jade!

    Sinto tua falta, Jade querida!
    Sei que o Felipe cuida muito bem de ti!

    Que vocês sejam felizes...
    nesta e em todas as próximas vidas!

    Beijos aos dois!

    Em tempo: Ainda quero ver a foto do casório em que eu apareço com vocês!*rs*

    Cris De Luca

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  3. Anônimo18:31

    puxa, muito bonito!
    parabéns pelas bodas de papel!
    tudo de bom ao casal de poios, e aproveitem bem a segunda lua de mel!
    adoro vcs!
    bjo!!!!

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  4. Queridos,
    também chorei de novo ao ler o texto... vocês são lindos!
    E entendi porque o telefone da Jade está tão fora da área... deve ser a tal segunda lua-de-mel!
    Pena que não estou nas fotos (se bem que ter sido lembrada como amiga querida já vale).
    Jade, me liga pra gente marcar aquele almoço qualquer dia desses!
    Beijão.

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  5. oi, queridos!
    bodas de papel, talvez agora bodas de pixels, heheeh!
    parabéns essa data tb é especial pra mim, que tava com um barrigão imenso no casamento!
    Já que não tenho cabeça de homem, me identifiquei com o texto da Jade e quase chorei aqui no trabalho! Muito legal relembrar esse momento
    Beijocas
    ana

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