01/11/2006

Uma cena

A mulher divertia-se com aquele alarido mudo dos pássaros, que voejavam à sua volta. Eram dezenas de pombos, todos entre o azul e o cinza, cores da melancolia. O bater de asas frenético, irrequieto, constante, e os pulos e sobrevôos que os pombos davam num espaço mínimo eram de uma agressividade selvagem. Porque os bichos duelavam de verdade pelos grãos de milho que a mulher soltava aos seus pés, aos punhados. Ela estava num dos níveis da escadaria da Catedral Metropolitana, no Centro de Florianópolis. Eram três e meia da tarde. E quase ninguém reparava a cena. A mulher sorria. Chovia fino, garoava pingos que não molham, e eu parei com o guarda-chuva aberto sobre a cabeça atrás de uma das barracas da feira livre que se instala no largo da catedral às quartas e sextas-feiras. A cena me divertiu. Cheguei a pensar que eu queria ter esse impudor, esse desprendimento bonito, de dar comida aos pombos. E assim, em horário comercial, sem jobs, nem textos, nem contratos, nem carimbos, nem malotes, nem ações, nem poupança, nem fundos ou juros, sem nada mais na cabeça senão a vontade de alimentar os pombos da catedral. Bem sei que esses bichos são sujos, hospedeiros de pulgas, carrapatos, piolhos. Que infestam as crianças, atormentam os garis, vivem na imundície. Sei de um amigo que, ao caminhar entre eles na Praça XV de Novembro ou no terminal de ônibus, desfere chutes a esmo, tentando acertá-los. Já ouvi até que há por aí uma campanha silenciosa, mas implacável, que prega o fim pelas armas dos pombos de Florianópolis. Mas a questão é que os pombos são cinza e azul, parecem sempre melancólicos, caminham como Carlitos, e voam, o que é invejável. E foi por isso que eu parei para olhar aquela mulher feliz. A maioria dos pombos (20, 30?) ficava aos pés da mulher, bicando o chão sem parar. Outros alçavam pequenos vôos, buscando o saco plástico que a mulher segurava, cheio de grãos de milho. A mulher estava entretida mesmo. Ela encolhia os ombros a cada investida dos 10 ou 15 pombos que a fustigavam. De repente, um pombo lhe pousa em cima da cabeça, garboso, e os óculos escuros dela, que descansavam, caem na frente dos seus olhos. Rimos juntos, e ouvi sua risada. Olhei para os lados e nenhuma boa alma parara para acompanhar aquela cena, que parecia ensaiada. Mas se os tempos modernos e os costumes das pessoas de fora já fizeram do florianopolitano um ser apressado, que caminha na rua ensimesmado, dialogando consigo mesmo, os turistas argentinos não. E foi um casal de jovens argentinos que parou para ver a mulher e sorrir. Sem o guarda-chuva que eu, precavido, utilizava, mas portando uma câmera digital, o rapaz pediu que a sua companheira posasse diante da grande igreja, perto dos pássaros. E a moça posou e saiu no retrato com a catedral de fundo e uma revoada de pombos sobre a sua cabeça. A produção dessa fotografia ficou por conta da mulher dos pombos. Isso porque, ao perceber que a moça iria se posicionar ali pertinho para a foto, ela jogou um punhado de grãos de milhos na direção da argentina. E riu, como rira, e como ri eu. Que bela foto.

2 comentários:

  1. Anônimo19:29

    felipe,
    esta, até agora, foi minha crônica preferida.
    beijo.

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  2. Anônimo01:25

    minha tb.

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