02/11/2006

Nanopinião 2

Berlim, de Joseph Roth - Cia das Letras Comprei o livro porque é da coleção Jornalismo Literário, que tenho quase completa (os lançamentos estão mais freqüentes, e o dinheiro não dá para tanto). Esperava mais. Em especial por causa de um comentário, feito por gente amiga, que leu a obra primeiro: "o repórter acompanha um sujeito que, preso em 1872, é libertado em 1923". Ao ouvir isso, fiquei curioso pela pauta. Imagina só a reação do cara ao deparar-se com automóveis, aviões, submarinos, lâmpadas, cinema, gramofones, telefones, rádio... O que poderia ser um baita relato, é uma crônica de três páginas. Muito bem escrita, como todas as outras crônicas do livro, mas insuficiente. Nem parece que ele acompanhou George B., condenado por latrocínio. O que também não entusiasmou muito foi a cidade Berlim. Nunca a visitei, mas a Berlim que eu tenho na cabeça é a da II Guerra Mundial, descrita nos livros por Cornelius Ryan (excepcional repórter de guerra), Traudl Junge (a secretária do Hitler) e Joachim Fest (historiador alemão que morreu em 11 de setembro), além de uma dezena de filmes sobre o conflito. Então, para quem não tem quase nenhuma referência, essa Berlim pré-guerra parece uma cidade de ficção. Os textos acabam ficando herméticos, e não consegui "entrar" neles. Mas que Joseph Roth, ucraniano, era um poeta mesmo, com uma sensibilidade muito acima da média, não há dúvida. No posfácio, Alberto Dines entrega que ele era mentiroso, megalomaníaco, egoísta, estrela e alcoólatra - só morava em hotéis. O texto mais bacana do livro (dividido por temas: No bairro judaico, Refugiados, No trânsito, Berlim - canteiro de obras, Burguesia e boêmios, A indústria da diversão em Berlim, Um apolítico vai ao Reichstag e Retrospectiva colérica), está no último capítulo, escrito no exílio, em Paris. O auto da fé do espírito é datado de 1933 (ano em Hitler se torna chanceler) e foi publicado no Cahiers Juifs. De origem judia, num texto indignado que denuncia as fogueiras de livros promovidas pelo partido nacional-socialista, Roth é de uma precisão assustadora: "…o espírito europeu está capitulando", e "tudo isso significa muito mais que o mundo ameaçado e aterrorizado quer acreditar". E mais: "O mundo ameaçado e aterrorizado precisa se dar conta de que o ingresso do cabo Hitler na civilização européia significa não apenas o início de um novo capítulo na história do anti-semitismo: longe disso!" Pois é.

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