por Jade Martins Lenhart
Carlos, amigo da minha vida, queria tanto que você estivesse aqui, esta noite em especial. Estou solteira agora, o Luciano viajou pra POA, e nunca você me fez tanta falta. Ouço o mar e o Cazuza, e sinto um friozinho bom, aquele vento sul que só recebe quem mora de frente pro mar (ou de lado, caso dos mais pobres, e o meu caso, claro). Acabei com uma taça agora, de um vinho chique que o casal Ferreira Fontes comprou - porque, como diz o Luciano, estamos velhos e ranzinzas e sofisticados demais para nos contentarmos com um reles e mortal Miolo. O Cazuza também ajuda no clima, agora é a vez daquela música obscura que diz: "livro depressivo, na areia da praiaaaaa". Minha cara, não? Pois então, meu querido, continuo a mesma. Ando morta de saudade, e sem fome nenhuma. Só me contento com sushi, e cada dia que passa fico mais fraca pra bebida. Dizem que é da idade; o corpo não responde mais aos desejos imediatos. Continuo sem a menor vontade de ir até aí, nessa cidade vendida e cheia de gente cafona. Sinto saudades perenes de Salvador, e já fui baiana, sim, eu sei, mas só com a malandragem, sem a preguiça. Acho que vou pra Recife no ano que vem; quem sabe não esteja lá aquele velho horizonte? Minha tese está na mesma, viu, achei de bom tom tirar umas férias. Nenhuma bolsa do Cnpq paga a minha sanidade. Você não devia se preocupar tanto: estou feliz, acho. Dentro dos meus limites, claro, que não comportam, como você sabe, nenhum tipo de felicidade alegre, juvenil. Já nascemos velhos, não era assim que você dizia? Ando escrevendo muito, demais, todos os dias, tudo o que vejo e sinto, tudo o que quero e temo. São mais de duzentas páginas de computador, em espaço simples, claro (os duplos eu deixo para os preguiçosos). Acho que posso dizer que estou na fase da correção, a bosta é perceber a cada página que ainda estou caminhando nessa história toda, uma pena. Meu apartamento é lindo, querido, você tinha que ver. Queria você aqui, dentro dele, olhando o mar comigo e rindo da pessoa em que me transformei, das pessoas em que nós dois nos transformamos, e quem diria você, hein, com um saco cheio de planos e mais essa promoção? Aquele velho incômodo permanece, no entanto. E quer saber? Ainda bem. Ando de saco cheio. Decidi que ou serei escritora ou serei escritora, e essas decisões não nascem sem um certo mal estar. Agora não saio da frente do computador. Escrevi cenas que você nem imagina, Carlos, algumas muito muito muito especiais. Queria conhecer sua namorada. Ou a namorada do seu patrão, não sei exatamente como chamá-la. Queria lhe puxar as orelhas e obrigá-lo a acreditar que você não vai ficar famoso nessa terra escrota. Queria apresentá-lo pros meus novos amigos, queria preparar um jantar especial pra lhe apresentar o Luciano, sabe que até hoje não entendo como casei com alguém que você nem conhece? Você gosta de tomate seco? E de risoto? E de massa integral? Tirei aquelas fotos do apartamento que você pediu, e vou mandar hoje ainda, talvez até nesta carta, driblando a solteirice súbita, aproveitando a saudade do meu bonequinho que foi para as terras do sul. Estou tão feliz... Carlos! Tão feliz que tenho até medo, sabe como é. Ao menos as coisas deram certo no final. Engraçado... hoje entendo todo o passado, todo aquele mal estar, todo aquele lento estraçalhar das folhas todas. Hoje entendo até a Marisa Monte, com aquela música ridícula de ninar criancinhas imbecis. Ando escutando muito samba de raiz agora, e bossa nova, como sempre, e rock antigo, daqueles que já eram velhos nos sessentinha. Continuo com a mesma alergia a cantorias recentes. Ah, a Clara noivou ontem, acredita? E vai morar aqui do lado, na praia seguinte, não é muita sorte? Vou dar uma moringa de presente pro casal, e moringa é uma garrafa d'água de porcelana florida que custa os olhos da cara (os presentes úteis eu deixo para os outros, de útil já basta o dia-a-dia). O apartamento dela é como o nosso, meu e do Luciano, tem pé direito alto, vista pro mar e piso de madeira (temos um horror escancarado e cúmplice à cerâmica!). Só que o dela fica ao lado da padaria que tem o melhor croissant recheado (com chocolate!!!) da cidade, e o meu não. A novela das oito está um saco, Carlos, e eu continuo viciada na das sete, acredita? Aquela atriz de que você tanto gostava, a loira, que já foi ruiva, aquela que já posou nua, em cima de uma coleção de carros antigos, acho, está mais magra do que eu, acredita? E ela acabou de perder um bebê, mais um, e eu ainda não passei dos 47 quilos. Mas a coxa dela é bem maior, sorte a minha (e a do Luciano, que diz que mulher magra é mulher com menos de 45 kg). Você viu que a Kate Moss vai casar!!! E, nossa, ela está cada dia mais linda, não acha? Às vezes fico de saco cheio, Carlos. Às vezes tudo me entendia, às vezes não vejo muito sentido, não. Acho que mundo é uma impossibilidade, no fim das contas. O negócio é fingir que a gente ajeita, o que até engana, mas às vezes lá vem aquele velho travo na goela de novo. Te queria aqui, droga. Era só com você que eu falava sobre isso, logo com você, que sempre sentia tudo igual e não conseguia explicar. És meu melhor amigo, viu, sem dúvida, e quanto mais eu conheço as pessoas mais eu sinto a sua falta. Estarei sempre aí, meu querido, mesmo que quando a gente se dê conta já seja tarde demais. Te adoro, te adoro, te adoro. E decidi: as fotos do apê seguem nesse mesmo envelope, todas elas. Repara no meu vestido longo, foi o primeiro da minha vida. Comprei especialmente para um casamento do interior, um lugar estranho, espremido entre árvores, uma mosquitada dos infernos, cruzes, coisa cafona viver a mais de trinta graus. Foi o Luciano, lindo, que bateu as fotinhos pra você, e separou por ambientes, todo cheio de boa vontade. Ele é meu motivo, Carlos, meu único motivo. Tem jeito não, fui tocada pelo amor. Ao menos não fiquei abobada, graças a deus. Não rezamos à toa, meu caro, não rezamos à toa. Te amo, amigo-irmão, te amo pra sempre, à revelia de todo o resto. Porque o mundo, meu amigo, o mundo é um lugar muito feio. Até a próxima.
se este conto é autobiográfico, somos muito parecidas. não em tudo, mas em muitas coisas, até demais. deve ser seu jeito, bastante pessoal, de escrever. gostei.
ResponderExcluirei jade, escreva mais. :)
ResponderExcluirbeijos pra vocês dois.
Fique tão surpreso com tua carta e ao mesmo tempo meu coração avisava-me que ela viria! Lindas as fotos, todas... todos. Eu acho que nunca estive tão feliz em minha vida. É engraçado por que o amor, que outrora jurava ser minha própria alma, hoje não esta contribuindo em nada para minha felicidade, aliás, ele ultimamente, só tem me deixado triste. A “namorada do chefe”, já não a suporto mais e o chefe, esse me odeia!
ResponderExcluirAs fotos que você vê são de telas que comecei a pintar. Já pintei três, todas para ti. A melhor de todas não lhe mandei a foto, receberás a tela em breve, é uma cópia, mas não é uma cópia qualquer é daquele Van Gogh... para ti e principalmente por ti. As outras duas que você vê são também cópias, são dois Corot. Futuramente tentarei um Boucher.
Estou lendo bastante também, leio tudo. Um dia quero escrever um livro, não tenho pretensões literárias, só quero escrever algo que eu goste e, principalmente, que você goste. Preciso despedir-me, espero ansioso sua próxima carta sua. Um grande abraço! Teu Carlos
carlos é jade?
ResponderExcluirbarbara,
ResponderExcluircarlos é um fantasma muito amigo da Jade. e meu, claro.
fantasma simpático, como vocês, claro.
ResponderExcluir;)
A esperança é coisa com plumas.
ResponderExcluirHoje cortei a franja. Ainda está difícil me acostumar com o espelho. Nossa!, acho que há 20 anos não tenho franja. Na época ainda usava lancheira e chamava o intervalo de recreio. Será que estou querendo voltar a infância? Voltar não, fugir. Estou cansada. Nem Gatsby consegue mais me tirar desse desânimo de tudo, desse desânimo do mundo. Minha luz verde, acho que nunca existiu realmente. Em vários momentos apertei tanto os olhos, desejei tanto, que pensei ter avistado aquele ponto verde a me acenar do horizonte. Mas ele logo desaparecia como sempre acontece com os pontinhos que vemos depois de olhar para um foco de luz. O amor já me encontrou, sim. E sua luz foi tão forte que meus olhos viviam embaçados por pontinhos de esperanças, de planos, de felicidades. Eu, logo eu! passei a imaginar nossa casinha na Ilha, nossa livraria-café ou videolocadora com todos aqueles filmes que nós sabemos os mais maravilhosos mas que ninguém vê. Nós e os antonionis, fitzgeralds, bergmans, hemingways, woody allens e filhos. Filhos, sim, imaginamos filhos. Nós que sonhávamos com o mundo, sonhando agora aqueles sonhos comuns que só passamos a entender depois de sentirmos o que é realmente o amor. Esse amor não me abandonou mas aos poucos fui percebendo que ele não era suficiente para me fazer esquecer as angústias. Os pontinhos sempre acabam desaparecendo, não é mesmo?
E agora estou aqui, sentindo o impossível. Sinto falta da Jade e do Carlos. Alguém pode me explicar como posso sentir falta de alguém que nunca conheci? Estou ficando louca? Não, não há espaço para a loucura. O que me domina é essa eterna melancolia, essa interminável busca por um sentido, esse peso que parece cada vez maior. Já nascemos velhos, como disse alguém que não conheço mas conheço. Nascemos sem plumas.
?
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