Gosto das pichações. Melhor, gosto é de grafite. A pichação é gratuita, leviana e não muda nada. No máximo, é curiosa, ora ferina, às vezes engraçada. Mas a sua principal desvantagem em relação ao grafite é a feiúra. Ninguém lhe presta mais que um ou dois segundos de atenção, por melhor que seja a intenção do pichador. É como o panfleto: o povão deita o olho e, em vez de ler uma frase, vê um urro gráfico, um berro imperativo, se cansa logo e joga o papel fora. Já o grafite é desenho, tem plano pictórico, mão e técnica de alguém com pendor para arte. É colorido, tem ao menos resquício de beleza. Mas eu quero contar é que vi duas pichações no Centro de Florianópolis.
Eduardo Galeano colecionou frases escritas em muros, por mãos anônimas, durante bom tempo. Publicou muitas em livros, e elas são uma beleza. "O poder é como o violino, pega-se com a esquerda e toca-se com a direita", por exemplo, ele encontrou em Buenos Aires, salvo erro meu. Outra de lavra portenha, surgida num paredão em pleno panelaço da crise de 2001, é esta: "Urinam sobre nós, e a imprensa diz que chove". Acontece que o argentino é um povo culto, e o brasileiro é um feriado.
Falta aos pichadores daqui o talento para a boa frase. Nelson Rodrigues, citado no parágrafo acima, costumava escrever que, no Brasil antigo, ninguém fazia nada sem antes dizer uma boa frase. Não precisava nem ser definitiva, bastava soar espirituosa. Eram os anos de Rui Barbosa, maestro do léxico, intelectual que resgatava da obscuridade os sinônimos mais esquecidos, para deleite das massas, "que homem!". Mais adiante, o dramaturgo passou a ver no Otto Lara Resende o frasista imbatível. Certa vez, o famoso jornalista mineiro foi à Europa, para uma temporada de viagens por vários países civilizados, e ficou encantado com o que avistara por lá. De volta ao Brasil, olhou os esplendores do Rio de Janeiro e sentenciou sem perdão: "Paisagem é verba". E o Nelson Rodrigues se derretia de inveja...
Pois na semana passada eu estava no ônibus e olhei pela janela, na Avenida Hercílio Luz, à altura do Clube 12 de Agosto, e me feriu os olhos a pichação sinistra:
VIVA A GREVE DO MAGITERIO!
Voltei a olhar nos dias seguintes, talvez eu estivesse comendo uma consoante, roubando um acento. Mas não:
VIVA A GREVE DO MAGITERIO!
Aquilo me impressionou. Eu me fiz professor de mentirinha e fiquei pensando no que eu, grevista, pensaria ao ler uma frase como aquela.
VIVA A GREVE DO MAGITERIO!
Sem dúvida, ficaria ainda mais constrangido do que o jornalista que de fato eu sou. E comecei a procurar mais frases nos muros do Centro da cidade. O tempo passou, não achei mais nenhuma.
Até que na terça-feira agora, véspera do feriado, fui almoçar na rua Visconde de Ouro Preto. Ao sair do restaurante, vejo outra pichação. Desta vez, no muro branco de um colégio. E a frase, pelo seu conteúdo, é de um outro defensor dos professores, talvez o mesmo, só que com uma "visão crítica" do mundo. Li:
SALAS DE AULA CHEIAS, MENTES VASIAS.
"Não, não, não é possível", pensei. "Tão de brincadeira." Limpei os óculos, afinal chovia, as lentes embaçaram, sei lá. Pus de novo os óculos e tornei a olhar.
SALAS DE AULA CHEIAS, MENTES VASIAS.
E era isso mesmo. Eu, então, desisti de procurar pichações no Centro. Mesmo.
15/11/2006
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rei, lindo, você citou meu site!!!
ResponderExcluirte amo, beijocas.