07/11/2006

Bendita feira

Na semana retrasada, ouvia um programa da Rádio Gaúcha. Os jornalistas tentavam debater futebol, Grêmio e Inter, coisa e tal. Mas a Feira do Livro de Porto Alegre já havia começado, e as atenções, agora, deixavam o campo e seguiam para a Praça da Alfândega, no Centro da cidade. (O programa é o Sala de Redação, que o Debate Diário, da CBN/Diário, de Florianópolis, copia, mas sem o tutano, a qualidade e o talento da turma de lá.) A feira é um acontecimento que mobiliza Porto Alegre: 15 dias de evento, 100 estandes, uma programação cultural e de autógrafos que, suponho, supera toda a produção de um ano da Fundação Catarinense de Cultura. As tevês só falam na feira, as rádios instalam redações na feira, os jornais lançam cadernos diários sobre a feira, os anúncios da feira se espalham por tudo, a cidade respira literatura sob a sombra das figueiras e dos garapuvus e os escritores... Os escritores ganham os flashes, viram heróis, a cidade inteira torna a botar sobre eles o olho da curiosidade, o olhar da admiração. As mulheres suspiram pelos autores dos diversos gêneros, as crianças os perseguem pela praça, os adultos lhes compram inúmeros livros. Há uma área para a Literatura Infantil, outra para publicações de línguas estrangeiras, outra para sebos, para livrarias, tudo na praça, à beira do Guaíba, a céu aberto, com um teatro Sancho Pança, uma Esquina das Histórias, uma Casa do Pensamento, uma Biblioteca do Cais, um Deck da Leitura, um Território de Pasárgada, uma Exposição Santos Dummont, uma Sala dos Autores, um Território das Escolas, uma Vitrina da Leitura... No entorno, sediando palestras, ciclos e eventos, o Centro Cultural do Sesi, O Museu de Arte do Rio Grande do Sul (com a exposição A arte sob o olhar de Djanira dentro), o Memorial do RS, o Santander Cultural, o Centro Cultural Erico Veríssimo, a Casa de Cultura Mario Quintana... Fica difícil falar de futebol. E um dos jornalistas, encantado com a feira que àquela altura (semana retrasada) já tornava Porto Alegre do avesso, resolveu falar de um livro. Um livro de entrevistas/participações de Carlos Drummond de Andrade, nas muitas rádios em que o itabirense poeta trabalhou. E o jornalista dizia aos colegas, besta: "Pois eu encontrei esse livro dentro de um balaio, minha gente. E por cinco reais. É inacreditável. Cinco reais, uma pérola daquela...". E eu, que me preparava para, no feriado, visitar a feira, fiquei besta com a notícia também, e já antevia os balaios cheios, as raridades assim ao alcance da mão, e às mancheias, e baratos, a cinco reais... E um outro da mesa-redonda confirmou: "É verdade. Neste ano, até os sebos têm balaios, com livros a três, cinco e dez reais... Que maravilha é a feira". E eu ouvia embevecido... Pois no sábado, lá fui eu à feira. Quando as barracas abriram às 13h, me atirei a elas com a sofreguidão de quem procura a cura de uma doença terrível. Ia remexendo, revirando, folheando, numa onda de gerúndios de cansar qualquer vivente. Mas eu não estava só: Porto Alegre inteira remexia, revirava e folheava livros. A tarde avançava, e eu capengava atrás dos livros... Até que um senhor pára ao meu lado, num dos balaios. Cabelos brancos, a boca já meio desdentada, um pequeno chapéu sobre a cabeça (ainda assim, as cãs à mostra). E ele procura, e eu procuro, e ele mexe, e eu leio e releio títulos, até que ele puxa um volume do meio do balaio, santo balaio. Eu bem tive vontade de olhar de soslaio o livro do velho, saber se ele tinha encontrado algo que eu procurava, invejoso... Mas me controlei, e continuei a busca. Então, o velho me cutucou no braço.
– Olha isso aqui. Que coisa incrível. O Fulano, na semana passada, disse que encontrou esse livro num balaio. E eu encontrei também! Isso aqui é uma beleza de livro, ele contou na rádio que é uma beleza de livro! Eu vou levar! Leva um também! Era mesmo o livro do Drummond. E eu, que não vivo em Porto Alegre, que quase não escuto rádios gaúchas, que não tenho nada a ver com o cotidiano daquele senhor, me senti seu cúmplice. Nós ouvimos o mesmo entusiasmado relato na rádio, na mesma hora, ele lá, eu em Florianópolis. E, naquele momento, uma semana depois, eu voltava a ficar suspenso de espanto, trêmulo de incredulidade, com aquela coincidência bacana. Bendita feira, bendito livro. *** Resultado das andanças: oito livros, R$ 60. Moise e o mundo da razão, de Tenessee Willians - Nova Fronteira Faulkner, de Monique Nathan - José Olympio A filha da neve, de Jack London - Companhia Editora Nacional O andarilho das estrelas, de Jack London - Axis Mundi O filho desejado, de John Steinbeck - Círculo do Livro Tribulações de um chinês na China, de Júlio Verne - Hemus Os melhores contos de Eça de Queirós - Círculo do Livro Paulo Francis - o soldado fanfarrão, de George Moura - Objetiva

Um comentário:

  1. Anônimo16:17

    Falar da Feira já é melhor do que falar de futebol.
    Quando o Grêmio perde então, melhor falar de qualquer coisa...

    Saudades de Porto Alegre!


    Beijos,
    Thysa

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