26/02/2008

Filarmônica de NY em Pyongyang - o velho dilema da imbricação entre arte e política

Arte é política! Na Neewsweek dessa semana, há uma nota sobre um festival de jazz promovido em outubro de 2007 no Second Life pelo Departamento de Estado norte-americano, com a apresentação de cantoras do mundo virtual, como a mexicana Ankari Holder e a australiana Paisley Beebe. O motivo? No SL, 65% do público (quase 1 milhão de avatares) é de não-americanos, "fertile ground for cultural outreach, officials say". Terça-feira, o nível de sofisticação subiu, a Filarmônica de NY se apresentou na capital da Coréia do Norte, ainda comunista, e matou a pau. Bem, pode ser que arte não seja política, que apenas quebre icebergs de diferença (eis o dilema do oficial SS em O Pianista, de Polanski, por exemplo), mas a matéria do NYT, hoje, saiu na editoria... Mundo. Philharmonic Stirs Emotions in North Korea By DANIEL J. WAKIN PYONGYANG, North Korea — As the New York Philharmonic played the opening notes of “Arirang,” a beloved Korean folk song, a murmur rippled through the audience. Many in the audience perched forward in their seats. The piccolo played a long, plaintive melody. Cymbals crashed, harp runs flew up, the violins soared. And tears began forming in the eyes of the staid audience, row upon row of men in dark suits, women in colorful high-waisted dresses called hanbok and all of them wearing pins with the likeness of Kim Il-sung, the nation’s founder. And right there, the Philharmonic had them. The full-throated performance of a piece deeply resonant for both North and South Koreans ended the historic concert in this isolated nation on Tuesday in triumph. Continua aqui.

A maldição dos trailers...

Um dos aborrecimentos de ir ao cinema é ver trailers. Quando anuncia-se um bom filme, que você quer ver há tempos (em Florianópolis até os lançamentos demoram a chegar), tudo bem. Mas em geral é porcaria. Há uma cena de Hollywood ending (Dirigindo no escuro) em que Woody Allen, interpretando um diretor há anos fora do mercado tentando voltar ao establishment, tenta convencer um produtor e o dono de um estúdio de que é capaz de filmar o roteiro proposto pela dupla. Numa das melhores piadas do filme, Woody garante que seu trabalho conquistaria "adultos, idosos, gente de meia-idade, jovens... Crianças, bebês de colo...". Assim é com a maioria das produções. No domingo, por exemplo, fomos assistir ao bom Onde os fracos não têm vez (que tradução para No country for old men, não?), e mais uma vez passamos pelo constrangimento de ter de aturar trailers de filmes "para todas as idades": O HOMEM DE FERRO (em que o ápice da babaquice é o personagem da Marvel surgir na tela com Iron Man, do Black Sabbath, de trilha sonora!) LOUCAS POR AMOR, VICIADAS EM DINHEIRO (pobre Diane Keaton!, que junto com um grupo de "divertidas" mulheres planeja um roubo de banco) EM PÉ DE GUERRA (pobre Susan Saradon!, cujo filho é um bem-sucedido escritor de auto-ajuda que precisa domar o amante da mãe, seu antigo professor de educação física no colégio)
ps. já percebi que tem um pessoal que só entra na sala de projeção com 15 minutos de atraso em relação ao horário oficial da sessão, desconfio que para não pegar trailers. Mas eu acho que não teria ido assistir a Leões e cordeiros sem ter visto o trailer antes no cinema...

Cinemark de graça: sem chances...

Eu não vou ganhar a promoção da rede Cinemark que dará cinema de graça para quem acertou o maior número de vencedores do Oscar 2008 nas 16 principais categorias da premiação. Matei 9, creio que as mais óbvias: Votos corretos: Filme - Onde os Fracos Não Têm Vez Ator - Daniel Day-Lewis Ator Coadjuvante - Javier Bardem Atriz - Marion Cotillard Atriz Coadjuvante - Tilda Swinton Diretor - Joel e Ethan Coen Filme de Animação - Ratatouille Figurino - Elizabeth: A Era de Ouro Montagem - O Ultimato Bourne Votos errados: Roteiro Original - Conduta de Risco Roteiro Adaptado - Desejo e reparação Música Original - Happy working song Filme Estrangeiro - Beaufort Fotografia - Desejo e Reparação Maquiagem - Piratas do Caribe - no Fim do Mundo Efeitos Visuais - Transformers

Veja a lista completa dos vencedores do Oscar aqui.

24/02/2008

Nanopinião 31

Rubem Braga - um cigano fazendeiro do ar, de Marco Antonio de Carvalho - Editora Globo OK, esta é uma "nanopinião" mais elaborada. Saiu na capa do caderno DC Cultura, na edição de ontem do Diário Catarinense:
Literatura O cronista passarinho Biografia de Rubem Braga, escrita por Marco Antonio de Carvalho, ilumina alguns aspectos pouco conhecidos da vida do escritor e jornalista capixaba FELIPE LENHART* Sabia-se que ele tinha apreço por frutas colhidas no pé, passarinhos cantadores e pelas mulheres mais lindas do Brasil. Que, desde cedo, o talento para a escrita e a vocação para o jornalismo o empurraram para dentro das redações, livrando-o dos escritórios de advocacia e do empolado estilo forense. Que viajou pelo país e o mundo, mas gostava mesmo era do vento litorâneo na cara e de dormir embalado na rede. Que não lia muito, era de pouco falar, cultivava árvores frutíferas na cobertura em Ipanema e garrafas de uísque no armário da sala. Que se metera em conflitos armados no Brasil e na Itália de olho atento a tudo e empunhando só uma caneta. Que era de poucos, fiéis amigos, mas colega de intelectuais, políticos, músicos e modelos. Que não gostava da política partidária, apesar de ter sido cônsul, embaixador e um dos fundadores do Partido Socialista Brasileiro (PSB) - mas também não desejava virar barão capitalista ou conde paulistano. Que escreveu sobre a beleza do pé de milho, o voejar da borboleta amarela, um alerta a Copacabana, uma ode às meninas em flor e uma celebração do fato miúdo. Pois agora há muito mais por descobrir a respeito da vida de Rubem Braga, o melhor, mais célebre e festejado cronista da história da imprensa brasileira. No fim de 2007, a editora Globo lançou um livro essencial, que havia anos reclamava um lugar nas estantes de pesquisadores e leitores saudosos. Rubem Braga: um cigano fazendeiro do ar, do jornalista Marco Antonio de Carvalho - morto em junho de 2007, meses antes do lançamento da obra que lhe consumiu uma década de pesquisas e entrevistas - , é um alento para quem procura compreender melhor a vida pessoal e profissional de um dos mais sensíveis e brilhantes escritores do Brasil, cuja produção foi apenas em parte publicada em 18 coletâneas, porque dispersa em uma coleção de jornais e revistas que somam inacreditáveis 61 periódicos. Um sujeito que sobreviveu da escrita desde a adolescência (estréia em 1928, no jornal Correio do Sul, de propriedade do irmão) e viria a morrer (escrevendo em O Estado de S. Paulo) em 19 de dezembro de 1990, num leito do Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro. Em silêncio, solitário e melancólico, mas "sabiá", como o apelidou o notável cronista mineiro Fernando Sabino. Até então, o livro mais famoso sobre o ilustre personagem era o do jornalista e crítico literário José Castello, intitulado Na cobertura de Rubem Braga (1996, José Olympio Editora) - um competente perfil biográfico do autor de O conde e o passarinho, de 168 páginas. Agora, são 564 páginas de texto e mais 46 com a discriminação de notas e referências. Eis o salto de riqueza e profundidade. Durante 10 anos, o biógrafo entrevistou centenas de pessoas que pudessem acrescentar um detalhe ao mosaico da vida do "velho Braga". Consultou incontáveis textos e cartas, gastou semanas em arquivos esquecidos, leu livros que o ajudassem a entender melhor o tempo em que viveu Rubem Braga - nascido em 12 de janeiro de 1913, em Cachoeiro do Itapemirim, cidade que daria à luz também o cantor Roberto Carlos e a diva Luz Del Fuego. Aspectos pouco conhecidos da trajetória do cronista, como sua atuação política, o trabalho de editor (nos anos 1960, fundou a Editora do Autor, com Fernando Sabino e o advogado Walter Acosta, e a Editora Sabiá, só com Sabino), o relacionamento com Tônia Carrero, o amor platônico (e ciumento ao extremo) por Danuza Leão e outras musas, o gosto por artes plásticas (ganhava quadros e os vendia em momentos de penúria), as desilusões com os amigos comunistas, as divergências artísticas com sumidades da cultura brasileira (considerava um erro Vinicius de Moraes ter trocado a sua fina poesia pelas "bobocas" letras de música), as prisões, o seu antigetulismo aguerrido, a atuação como funcionário do governo no exterior, são esclarecidos. Pode parecer covardia fazer críticas ao livro, sabendo-se o seu autor já falecido, mas Marco Antonio de Carvalho não foi um biógrafo de primeira linha, como o são Fernando Morais e Ruy Castro, para citar apenas dois. Talvez por ter nascido na mesma cidade do biografado, Carvalho tenha dado tanta ênfase, na parte inicial, a Cachoeiro: informações históricas pormenorizadas do município parecem "sobrar" no conjunto do livro - apesar de sabermos que a nostalgia da cidade natal seja um assunto recorrente na produção braguiana. A atua-ção profissional na Itália, durante a Segunda Guerra, também poderia ser mais detalhada. No geral, porém, o livro é muito bom - o último capítulo, sobre o câncer e o ritual de despedida de Braga, comove às lágrimas. Diga-se, ainda - e em favor de Carvalho - , que, numa nota final, o autor explica que até 1980 jamais se interessara por literatura brasileira ou biografias. O anjo pornográfico (1992, Cia. das Letras), magistral relato da vida de Nelson Rodrigues escrito por Ruy Castro, foi que lhe despertou a vontade de esmiuçar de maneira equilibrada a existência do cronista "indispensável", como ilustra o crítico Davi Arrigucci Jr.: "Anos atrás, quem fosse direto a certas páginas e não o encontrasse ia se sentir como o fumante que esqueceu os cigarros não sabe onde" (1999, Outros achados e perdidos). Há até revelações típicas de biografias, como a informação do verdadeiro motivo que levou Braga a "exilar-se" em Porto Alegre. No prefácio do livro 1939 - um episódio em Porto Alegre (2002, Record), Carlos Reverbel escreveu que Braga mudara-se para a capital gaúcha em pleno Estado Novo não para fugir da polícia de Filinto Müller, da censura de Lourival Fontes ou do olhar de Getúlio Vargas, mas a fim de "refazer-se de envolvente crise sentimental, talvez a mais perturbadora de sua vida íntima". Pudera. Como esclarece Carvalho, Rubem, casado com Zora Seljan, engravida Bluma Wainer, esposa do amigo Samuel Wainer, e a amante, apaixonada, deixa o marido disposta a viver com o cronista! Braga não pensa duas vezes: pega Zora, as trouxas e foge para o Sul longínquo. Ou o fato de que, em 1989, no fim da vida e já doente, passou pelo constrangimento de ser censurado em O Estado de S. Paulo, por escrever que votaria no "bronco Lula". Augusto Nunes, então editor-chefe, covardemente suprimiu a frase ("um gesto que faria o jornalista se penitenciar pelo resto da vida"), sem avisar ao autor, que se demitiu, furioso, mas voltou atrás. Afinal, o pomar da sua cobertura dava de tudo, menos dinheiro. * Jornalista
 
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