05/05/2009

CJC – Dia 1 – Tarde

Fachada do Tuca/SP, onde ocorre o evento.
A cultura como política pública O primeiro palestrante da tarde foi o ministro interino da Cultura, Alfredo Manevy, em nome de Juca Ferreira – não sei o motivo da ausência. Muito articulado, bom orador, em linhas gerais se focou nas mudanças estruturais no MinC a partir de 2003, quando Gilberto Gil assumiu. Mas começou alertando que o jornalismo atual se dedica muito pouco à questão das políticas públicas para a cultura, o que atrasa, ou emperra, o desenvolvimento do debate – exclui da crítica a cobertura da Lei Rouanet, que acaba de completar 18 anos. Revelou informações interessantes: - Assim que Gil tornou-se ministro, publicitários ligados ao governo aconselharam-no a cuidar de um ou outro assunto e executá-lo com competência. Dessa forma, deixaria sua "marca", o nome gravado na história do ministério e da política brasileira. - Gil liderou países para que acordassem, na Unesco, uma convenção que não permitiu a submissão de produtos culturais nacionais às leis do mercado internacional, como um produto qualquer (EUA e Israel foram os único a votar contra), o que resultaria na derrubada de certas barreiras e (ainda mais) enfraquecimento da produção local. - A chamada economia da cultura representa hoje 8% do PIB e 5% da mão de obra formal brasileira. - O orçamento do MinC até 2003 era de 0,3% do total do orçamento do governo; hoje é de 0,7%. A Unesco sugere 1% como mínimo; o ministro sonha com 3%. - Há no Congresso Nacional projeto de lei que tornaria os recursos da Cultura intocáveis, a salvo de cortes de última hora por contingências econômicas ou crises políticas, como são os da Saúde e da Educação. - Até 2003, o MinC era a única pasta que não possuía acordo com o IBGE. Não se realizavam pesquisas sobre consumo cultural e bens culturais. - O BNDES tem linhas de crédito para incentivo a empreendimentos culturais. - O Ministério da Previdência tem um plano especial para trabalhadores da cultura, em especial artistas que, em geral, por não terem emprego com carteira assinada, não conseguiam aposentadoria. - Está em estudo a implantação do Plano e do Sistema Nacional de Cultura, que funcionem como os existentes nas áreas da Saúde e da Educação e tracem metas e objetivos a serem alcançados no longo prazo, independentes de governos e partidos. - Uma confissão: a Funarte foi o setor que menos recebeu atenção do MinC, e isso foi um erro tremendo: a fundação ficou para trás em relação a outros setores. - Uma frase: “A pirataria ocupou um espaço neste aparteid cultural que existe no Brasil”. Lei Rouanet: uma fábrica de frustrações Em seguida falou Roberto Nascimento, Secretário de Incentivo e Fomento à Cultura do MinC. Seu assunto foi as mudanças propostas pelo governo na Lei Rouanet – que têm gerado debate nos jornais nos últimos dias. Defendeu um meio termo entre o fim da prática de renúncia fiscal, como defendem alguns, e a renúncia de 100%, como prefeririam outros. E elogiou em especial a criação das novas faixas de descontos de IR (60, 70, 80 e 90%, além das de 30% e 100% que já existiam). E atacou duramente o “sistema” em que pouquíssimos de RJ e SP conseguem captar e o resto do país pena com projetos aprovados no MinC mas sem sucesso algum na hora de arrecadar dinheiro com a iniciativa privada. A Lei Rouanet é, disse Nascimento, “uma fábrica de frustrações e tem de mudar”. Novamente, mais informações preciosas: - Em 18 anos de Lei Rouanet, 3% dos proponentes captaram 50% dos recursos totais. - Em 2004, o montante de renúncia fiscal ultrapassou o total do orçamento do Minc. - 80% dos recursos que financiam a cultura no país vêm da renúncia fiscal. Desses, 80% são captados para projetos aprovados da região sudeste.: ES com 1%, MG com 14% e RJ/SP com 85%. - Apenas 20% dos recursos que financiam a cultura no país são do MinC, o que dificulta seu trabalho de minimizar distorções na distribuição do dinheiro provocada pela renúncia fiscal que dá preferência a projetos “bonitos” e de “gente famosa”. A ideia com as mudanças (consulta pública do documento aqui, até amanhã) é enfraquecer o poder dos departamentos de marketing das empresas na formulação da cultura brasileira.

Congresso de Jornalismo Cultural – Dia 1 – Manhã

A abertura do Congresso de Jornalismo Cultural promovido pela revista Cult, ontem, em São Paulo, foi feita pelo reitor da PUC (o evento ocorre no teatro da universidade), Dirceu de Mello. Eu não vi, porque a primeira manhã do congresso foi marcada por um desarranjo de 1 hora no início das palestras. O filósofo Franklin Leopoldo e Silva, professor titular da USP, terminou sua fala – um texto levemente burocrático sobre barbárie e cultura, lido com pressa e sem abertura para perguntas ao fim – no momento em que deveria estar começando a falar. O resultado é que 11h estavam todos liberados para o almoço, com o retorno das atividades marcado para as 14h, quando tudo voltou aos eixos. A tarde seria bem produtiva. ps. só hoje consigo postar os textos escritos ontem à noite, madrugada adentro. As postagens sobre o dia 2 serão mais rápidas.

A crônica de ONTEM, no DC!

Página 7 do caderno Variedades, no Diário Catarinense. Eu ando de ônibus Sim, há 15 anos eu ando de ônibus. Caminho até o ponto, dirijo-me ao terminal, saio correndo, aguardo dois minutos, mofo por meia hora, tenho sono e estou cansado, estou desperto e tenho gana, quero que chegue mas posso esperar. Fico na fila, entro no bolo, não empurro, não impeço a passagem. Tomo banho de chuva, o toldo do ponto está quebrado, passa um carro, passam dois, três carros nas poças da rua, rumino a minha espera molhada, o guarda-chuva aberto sobre a cabeça quente. Leio um livro – às vezes chove para dentro e molha o papel, às vezes chove no papel pelo reflexo da janela fechada –, folheio revistas, não ouço música, não falo ao celular, também não converso com estranhos. Aprecio histórias de cobrador, não entendo o mau humor dos motoristas, me intriga de verdade a fixação por manobras bruscas, fico emburrado com a falta de educação epidêmica e com a demora do troco, e se o motor pifa, então, eu não gosto muito de caminhar, mas é da vida nos ônibus. Embarco, desembarco, pago a tarifa, passo o cartão, giro a catraca, sento no fundo. Sob a luz branca, na janela de preferência, no corredor quando não há braço de apoio, porque é assim que se faz para transformar um ônibus de linha em um ônibus leito. Cedo o lugar, vou em pé, agarrado aos ferros, apoiado nas paredes, plantado em frente da porta, sentado nos degraus. Contando estrelas ou mirando o céu sem nuvens, de olho na paisagem, no vaivém lá fora, aquele monte de carros congestionando e poluindo e estressando e se arrastando nas filas, e é por isso, também, que eu ando de ônibus. Amarelinho é uma beleza, custa pouco mais para quem já paga bastante, mais que o dobro para quem arca com o tolerável, bem sei, mas é bom de verdade e eu aprecio o estofado já que não há conversa de cobrador para apreciar. Tem televisão, não podemos esquecer, e aparelho que não funciona, chiadeira e interferências na tela, e quando não é a tevê é o rádio, em geral em alto volume, aí acho que se pode ceder ao fone de ouvido sem deixar de ser uma pessoa que realmente anda de ônibus com sensatez. Porque o ônibus não é, o ônibus só vai e vem, vai e volta, quando não quebra. Ônibus não é a causa de tranqueiras, o responsável pelo “caos” do rush, o verdugo do trânsito. Ônibus trabalha em levadas e turnos, itinerários e atrasos, carregando gente. Gente de monte, amontoada, cansada. Mais ônibus, por favor.

03/05/2009

Blog novo e o Congresso de Jornalismo Cultural

Bom, dia 30 de abril, quinta-feira passada, foi meu último dia dos três anos de trabalho na editora Letras Brasileiras, aqui de Florianópolis. Por pelo menos alguns meses, vou me dedicar ao mestrado de Literatura na UFSC e, se possível, entrarei no mercado de free-lancers, já bem representado aqui na cidade por feras como o Dauro Veras e o Maurício Oliveira, por exemplo, com quem já aprendi muito sobre esse tipo de serviço lendo os excelentes blogs Dveras Em Rede e Vida de Frila (praticamente um manual das vantagens e agruras desse meio de vida). Que os colegas me dêem a permissão para me juntar a eles! Para marcar a mudança radical, pensei durante um mês em mudar a cara do 1 Crônica Por Dia, que já tem dois anos e seis meses e nunca passara por reformulação. Comecemos de cima para baixo. A arte do topo foi criada por Lya Zumblick, designer fera que entrou para a esquipe da editora no fim do ano passado. O talento dela é borbulhante: no mês passado, a segunda edição do livro Logo Design, que a editora alemã Taschen publica com as melhores criações do mundo inteiro, saiu com quatro marcas desenhadas pela Lya. Mudei fontes, cores e tamanhos para que tudo tivesse um frescor de novo e combinasse com a marca. (Se fracassei, me avisa, Lya!). Adicionei aí na barra ao lado um espaço fixo para vídeos, que será atualizado três vezes por semana. Por agora, a abertura de Annie Hall, do Woody Allen. OK, blog novo, mas o que fazer com ele que eu não podia fazer antes, trabalhando full time na editora? Uma cobertura jornalística! Hoje à noite embarco para São Paulo e só volto de lá no domingo que vem, 10 de maio. Passarei a semana assistindo às palestras e atividades do 1º Congresso de Jornalismo Cultura, promovido pela revista Cult. O evento ocorrerá no Teatro da PUC/SP, de manhã e de tarde. Jornalistas de mercado e professores das faculdades de ciências humanas debaterão todos os aspectos do assunto: cultura, políticas públicas, Lei Rouanet, o jornalismo cultural no Brasil e no exterior, televisão, literatura, teatro, música, cinema, artes plásticas, formação universitária. Isso com a presença de Arthur Nestrovski, Cristovão Tezza, Beth Néspoli, Bráulio Mantovani, Eugênio Bucci, Gabriel Priolli, José Miguel Wisnik, Lobão, Luiz Zanin, Manuel da Costa Pinto etc. etc. (aqui, a lista completa dos palestrantes, e aqui, a grade de programação). Me pareceu que participar de um congresso desse porte e dessa qualidade seria o combustível necessário nesta tentativa de eu me tornar um aprendiz de Dauro e Maurício nos próximos dias. Então é isso. Tentarei escrever pelo menos duas postagens por dia sobre o evento aqui no blog e várias vezes por dia no Twitter. Espero que você goste do novo site, que marca um novo momento. ps. e não esqueça de visitar o Jadices de vez em quando, claro, porque, como diz um amigo nosso, "a Jade escreve muito melhor que você".
 
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