05/05/2009
A crônica de ONTEM, no DC!
Página 7 do caderno Variedades, no Diário Catarinense.
Eu ando de ônibus
Sim, há 15 anos eu ando de ônibus. Caminho até o ponto, dirijo-me ao terminal, saio correndo, aguardo dois minutos, mofo por meia hora, tenho sono e estou cansado, estou desperto e tenho gana, quero que chegue mas posso esperar. Fico na fila, entro no bolo, não empurro, não impeço a passagem. Tomo banho de chuva, o toldo do ponto está quebrado, passa um carro, passam dois, três carros nas poças da rua, rumino a minha espera molhada, o guarda-chuva aberto sobre a cabeça quente. Leio um livro – às vezes chove para dentro e molha o papel, às vezes chove no papel pelo reflexo da janela fechada –, folheio revistas, não ouço música, não falo ao celular, também não converso com estranhos. Aprecio histórias de cobrador, não entendo o mau humor dos motoristas, me intriga de verdade a fixação por manobras bruscas, fico emburrado com a falta de educação epidêmica e com a demora do troco, e se o motor pifa, então, eu não gosto muito de caminhar, mas é da vida nos ônibus. Embarco, desembarco, pago a tarifa, passo o cartão, giro a catraca, sento no fundo. Sob a luz branca, na janela de preferência, no corredor quando não há braço de apoio, porque é assim que se faz para transformar um ônibus de linha em um ônibus leito. Cedo o lugar, vou em pé, agarrado aos ferros, apoiado nas paredes, plantado em frente da porta, sentado nos degraus. Contando estrelas ou mirando o céu sem nuvens, de olho na paisagem, no vaivém lá fora, aquele monte de carros congestionando e poluindo e estressando e se arrastando nas filas, e é por isso, também, que eu ando de ônibus. Amarelinho é uma beleza, custa pouco mais para quem já paga bastante, mais que o dobro para quem arca com o tolerável, bem sei, mas é bom de verdade e eu aprecio o estofado já que não há conversa de cobrador para apreciar. Tem televisão, não podemos esquecer, e aparelho que não funciona, chiadeira e interferências na tela, e quando não é a tevê é o rádio, em geral em alto volume, aí acho que se pode ceder ao fone de ouvido sem deixar de ser uma pessoa que realmente anda de ônibus com sensatez. Porque o ônibus não é, o ônibus só vai e vem, vai e volta, quando não quebra. Ônibus não é a causa de tranqueiras, o responsável pelo “caos” do rush, o verdugo do trânsito. Ônibus trabalha em levadas e turnos, itinerários e atrasos, carregando gente. Gente de monte, amontoada, cansada. Mais ônibus, por favor.
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