28/03/2007
Ella e Noel
No início do mês, passei uma semana na capital São Paulo. De lá, trouxe um certificado de participação do curso de "Preparação e revisão de originais", da Editora da UNESP, e um box de cinco CDs da Ella Fitzgerald, pelo que paguei incríveis R$ 69.
Num dos discos, há uma beleza de música chamada Stone cold dead in the market. Ella faz um dueto com Louis Jordan, de quem nunca ouvira falar. Quando a ouvi pela primeira vez, pensei que a canção tivesse sido gravada numa gafieira, com letra de Noel Rosa. A Jade ouviu e achou também. Procure ouvir também.
Eis a letra:
He is stone cold dead in the market
He is stone cold dead in the market
He is stone cold dead in the market
I killed nobody but me husband.
Last night I went out drinking
When I came home I gave her a beating
So she cotched up the rollin' pin
And went out to work on my head
Until she boshed it in.
I lie cold dead in the market
Stone cold dead in the market
I lie cold dead in the market
She killed nobody but her husband.
I lick him with the pot an' the frying pan
I lick him with the pot an' the frying pan
I lick him with the pot an' the frying pan
And if I kill him, he had it coming, man!
He is stone cold dead in the market
He is stone cold dead in the market
He is stone cold dead in the market
I killed nobody but me husband.
My family, they are swearing to kill her
My family, they are swearing to kill her
His family, the're swearing to kill me
And if I kill him, he had it coming
I lie cold dead in the market, child
Stone cold dead in the market, child
I lie cold dead in the market
She killed nobody but her husband.
There is one thing I am sure
He ain't going to beat me no more
So I tell you that I doesn't care
If I was to die in an electric chair
Man, he is stone cold dead in the market
He is stone cold dead in the market
He is stone cold dead in the market
I killed nobody but me husband.
Hey child, I'm coming back
And bosh on your head one more time
No, no man, you can't do that
You're stone cold dead in the market, Murder!
(The criminal is) stone cold dead in the market
Stone cold dead in the market
I killed nobody but me husband.
14/03/2007
Longa vida boa aos sebos!
Já comprei muito livro via EstanteVirtual, disparado o site brasileiro mais importante criado de 2005 pra cá. Recebo a Newsletter, e a última veio cheia de boas notícias:
- 445 sebos e livreiros virtuais, de 113 cidades, conectados à nossa busca
- 681 mil livros online, já catalogados
- 6,9 milhões de livros offline, acessíveis através de busca offline
- 1 busca a cada segundo (temos sido chamados de o Google dos Sebos)
- 50 mil visitantes por dia (1 maracanã de leitores por dia)
- 50 mil leitores cadastrados (de 1,7 mil cidades brasileiras e do exterior)
- 70 mil livros já vendidos desde o lançamento (o equivalente ao acervo de 14 sebos inteiros)
Coisa boa!
09/03/2007
Última Crônica de Verão / Diário Catarinense
Uma história da despedida
A despedida nasceu há muitos Verões. Dizem que o primeiro a olhar para os outros e dizer "bye, bye" foi o bravo Jesus, dependurado na cruz de madeira. Mas há certos estudiosos que garantem que o "adeus" inaugural da humanidade foi dito por um filósofo grego hoje desconhecido, mas então muito famoso, chamado Sefui – amigo fiel de Heródoto. Defendem esses helenistas que Sefui, num dia quente de Verão, depois de beber muita água, reuniu alguns conhecidos na beira da praia (inclusive o efebo Laskeime, muito tristonho com a partida do mestre), despediu-se e se jogou ao mar, vindo a morrer sabe-se lá quando, como ermitão numa ilha grega.
Mas a História é uma Caixa de Pandora: sai tanta coisa dela que os historiadores não conseguem se decidir, chegar a conclusões definitivas, às vezes nem coerentes. Tudo nesse campo é movediço, incerto e inconstante. Veja se não: há uma certa escola historiográfica que simplesmente despreza a despedida como tema de estudo, considera o ato de dar tchau ao outro uma bobagem sem tamanho, que não merece a mínima atenção. Um representante dessa facção chegou a declarar: "O homem foi à Lua, e ainda não nos livramos do 'adeus'", no que foi ignorado pela mídia e pelo mundo acadêmico.
Outra turma, porém – e é dessa que eu gosto, aliás –, defende com firmeza a leitura de pergaminhos, correspondências, hieróglifos, documentos e bilhetinhos da antiguidade para entender a fundo o ato de dizer "falou, cambada" e mais: identificar a época exata em que esse costume se tornou universal entre os homens de todas as partes. Há, por exemplo, uma teoria elaborada por essa panelinha que dá conta de uma conjunção extraordinária de fatores para explicar o surgimento do "inté". É tão complicada – envolve quase todas as ciências – que até hoje ninguém conseguiu explicá-la com clareza.
Existe ainda um texto que trata de um suposto conciliábulo ocorrido à luz de archotes em alguma caverna da Europa, já durante a Idade Média, em que um grupo de filólogos e etimológicos decidiu formar uma confraria com o intuito de dar fim à palavra "adeus" dos dicionários de todos os idiomas. Diz-se à boca pequena nos corredores das principais universidades, naqueles intervalos em que não se debate O Código Da Vinci, que essa seita estendeu tentáculos em todas as áreas e hoje manda e desmanda em Wall Street e na OPEP.
Mas, para mim, a patacoada mais divertida que os historiadores inventaram até hoje é outra. Segundo a lenda, o primeiro "até logo" da saga humana foi ouvido ainda nos tempos da Idade das Pedras. No início de um Verão inclemente, o macaco cabeludo olhou de lado para a esposa, olhou para a floresta que se estendia aos seus pés (a caverna ficava num morro alto), coçou as suas grandes partes baixas e anunciou:
– Está muito quente, mulher. Vou para o litoral. Só volto no Inverno. Adeus.
ps. O meu amigo Douglas Vianna anda melancólico. Ele, que de dezembro até a semana passada vivia alegre, agora resmunga: "Começou esse triste intervalo entre o Carnaval e o Reveillon". Pois é, acabou. Que dizer? Adeus.
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02/03/2007
Crônica de Verão 11 / Diário Catarinense
Está chegando a hora...
Com o fim do Verão, até as conversas tornam-se mais francas e realistas. Afinal, foi-se o Carnaval, vem aí 2007. Acompanhe a conversa desses dois amigos, um de 45 e outro de 32 anos. Eu estava presente, e foi num bar de praia:
– Rapaz, você é jovem, acho que não vai compreender o meu drama.
– Jovem? Com quase quarenta? Tá bom...
– Rá, quem me dera rejuvenescer até os quarenta...
– Mas o que é que está incomodando?
– Um negócio cruel, não encontro outra palavra. Imagine que dentro de uma semana um homem vestido todo de branco vai mexer nas minhas partes mais íntimas...
– ???
– É isso mesmo. Farei exame de próstata na semana que vem, meu rapaz. Estou na idade. Agora você percebe o quanto dez anos a menos faz bem...
– Caraca, nem me fale. Não gosto nem de pensar que um dia farei isso. Acho que você fez bem em deixar o Verão terminar...
– Pois saiba que eu não sei se fiz certo. Vou explicar: marquei o exame em dezembro do ano passado e, de tão nervoso, quase não aproveitei a praia. Eu dava um mergulho e sentia uma fisgada...
– No peito?
– Quem dera...
– Ih... Eu não gosto nem de pensar... E quando chegar a minha vez?
– Viu só? Prepare-se, porque eu pesquisei em todo canto: não há uma única mulher na cidade que faça esse exame! Só homens!
– Não acredito. Mais essa...
– E você aí despreocupado...
– Que coisa humilhante. Continuo achando que você fez certo de não fazer o exame no Verão. Eu até deixava para o inverno...
– Humilhante, essa é a palavra. E na semana que vem, lá vou eu...
Então a dupla virou-se para mim e o mais velho perguntou:
– E você, cronista, o que acha desse nosso papo? És ainda mais jovem do que o colega aqui, então não deves estar dando bola para isso, hein?
– Você tem razão. O que posso dizer? A minha sorte é que eu sou cronista e não urologista. Pior do que ser submetido a este exame é ter de ganhar a vida aplicando-o nos outros. Não me espanta que não haja mulheres dispostas a isso...
Os dois chamaram o garçom e pediram a conta.
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