Uma história da despedida
A despedida nasceu há muitos Verões. Dizem que o primeiro a olhar para os outros e dizer "bye, bye" foi o bravo Jesus, dependurado na cruz de madeira. Mas há certos estudiosos que garantem que o "adeus" inaugural da humanidade foi dito por um filósofo grego hoje desconhecido, mas então muito famoso, chamado Sefui – amigo fiel de Heródoto. Defendem esses helenistas que Sefui, num dia quente de Verão, depois de beber muita água, reuniu alguns conhecidos na beira da praia (inclusive o efebo Laskeime, muito tristonho com a partida do mestre), despediu-se e se jogou ao mar, vindo a morrer sabe-se lá quando, como ermitão numa ilha grega.
Mas a História é uma Caixa de Pandora: sai tanta coisa dela que os historiadores não conseguem se decidir, chegar a conclusões definitivas, às vezes nem coerentes. Tudo nesse campo é movediço, incerto e inconstante. Veja se não: há uma certa escola historiográfica que simplesmente despreza a despedida como tema de estudo, considera o ato de dar tchau ao outro uma bobagem sem tamanho, que não merece a mínima atenção. Um representante dessa facção chegou a declarar: "O homem foi à Lua, e ainda não nos livramos do 'adeus'", no que foi ignorado pela mídia e pelo mundo acadêmico.
Outra turma, porém – e é dessa que eu gosto, aliás –, defende com firmeza a leitura de pergaminhos, correspondências, hieróglifos, documentos e bilhetinhos da antiguidade para entender a fundo o ato de dizer "falou, cambada" e mais: identificar a época exata em que esse costume se tornou universal entre os homens de todas as partes. Há, por exemplo, uma teoria elaborada por essa panelinha que dá conta de uma conjunção extraordinária de fatores para explicar o surgimento do "inté". É tão complicada – envolve quase todas as ciências – que até hoje ninguém conseguiu explicá-la com clareza.
Existe ainda um texto que trata de um suposto conciliábulo ocorrido à luz de archotes em alguma caverna da Europa, já durante a Idade Média, em que um grupo de filólogos e etimológicos decidiu formar uma confraria com o intuito de dar fim à palavra "adeus" dos dicionários de todos os idiomas. Diz-se à boca pequena nos corredores das principais universidades, naqueles intervalos em que não se debate O Código Da Vinci, que essa seita estendeu tentáculos em todas as áreas e hoje manda e desmanda em Wall Street e na OPEP.
Mas, para mim, a patacoada mais divertida que os historiadores inventaram até hoje é outra. Segundo a lenda, o primeiro "até logo" da saga humana foi ouvido ainda nos tempos da Idade das Pedras. No início de um Verão inclemente, o macaco cabeludo olhou de lado para a esposa, olhou para a floresta que se estendia aos seus pés (a caverna ficava num morro alto), coçou as suas grandes partes baixas e anunciou:
– Está muito quente, mulher. Vou para o litoral. Só volto no Inverno. Adeus.
ps. O meu amigo Douglas Vianna anda melancólico. Ele, que de dezembro até a semana passada vivia alegre, agora resmunga: "Começou esse triste intervalo entre o Carnaval e o Reveillon". Pois é, acabou. Que dizer? Adeus.
09/03/2007
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será que vou lembrar das suas crônicas toda vez que der tchau, assim como do " gelo-e-limão" ????
ResponderExcluirNão! Aí já é perseguição e teremos de ir os dois para o analista. :)
ResponderExcluirhahahahahahha
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