Verão corrido
A mulher acordou disposta na manhã daquele sábado. Olhou o rádio-relógio. Eram 8h30. Levantou sem fazer barulho, vestiu-se com uma roupa de corrida. Até tênis calçou. Saiu do quarto sem incomodar o marido, que na noite passada chegara tarde de uma pescaria com os filhos. Ela já dormia, aliás, quando os homens da casa entraram pela porta da sala, fedidos e cansados, carregando três baldes de peixes frescos. Agora, a manhã era sua.
Foi à cozinha e espiou o tempo pela janela. Fazia um sol brando, sem nuvens no céu. Havia só uma semana que a aula das crianças terminara (todos passaram por média, graças a Deus) e o maridão entrara em férias. A casa de veraneio, depois de alguns ajustes, já estava nos eixos. Aos poucos todos se adaptavam à rotina da alta temporada. Mas como era difícil!
A mulher bebeu um suco de laranja desses de caixinha (promoção no mini-mercado da esquina) e saiu, em direção à praia. Queria correr e espairecer! Por conta de uns desacertos do marido no trabalho, no ano anterior o dinheiro não entrou como nos anteriores. Resumo: o corte de gastos atingiu a empregada doméstica e a faxineira. Ela é que teve de assumir as atividades. 2006 fora cansativo... Mas agora era Verão, época de descanso e das boas coisas da vida.
A praia estava lotada. Nas outras duas vezes em que tentara correr pela orla, fracassara. Primeiro porque não estava de tênis, e pouco mais de meia hora com os pés na areia destruíram os seus joelhos, que doeram pelo resto do dia. Depois, porque havia uma infinidade de gente jogando frescobol, batendo bola e futevôlei, enfim, trânsito congestionado como o das rodovias de Florianópolis no fim da tarde...
Na manhã desse sábado, porém, a praia estava cheia, mas sem aglomerações à vista. Então e mulher, que não estava para aborrecimentos (é Verão, época de descanso e das boas...), começou o seu cooper. E a manhã transcorreu na mais santa harmonia. No meio do caminho, a mulher até deu umas espiadas nas pernas dos homens sarados que encontrava, sem saber que eles... Bem, era só olhar mesmo, não tentaria convencê-los a "mudar de lado".
O tempo passou ligeiro enquanto a mulher correu, praticou, exercitou-se com vontade. Quando deu por si, já tinha ido e voltado várias vezes de um costão a outro. Retornou apressada, parando apenas para comprar uma água de coco estupidamente gelada. Mas ao chegar em casa, a surpresa. O marido e os filhos a esperavam com a cara mais feia do mundo. O pai especialmente, porque estava ao tanque, tratando de estancar o sangue de um corte arranjado na lida de descamar os peixes...
– Pombas, mulher! A gente passa a noite pegando peixes pro nosso almoço de sábado e você nem dá bola! Acorda e vai correr na praia! Ora, ora... Vem cá e termina com isso, que eu já até me cortei todo...
E a mulher riu de feliz da falta de jeito do seu marido. É Verão...
12/01/2007
09/01/2007
Nanopinião 15
O repórter do século, de José Hamilton Ribeiro - Geração Editorial
As leituras de 2007 começaram. O livro é meio picareta, porque promete na capa as "7 reportagens que ganharam os 7 prêmios Esso e a mais famosa: VIETNÃ". Mas, na verdade, das oito só existem seis. Isso porque os sete prêmios Esso de José Hamilton Ribeiro não são da categoria "Prêmio Especial de Reportagem" (o mais brilhante dos galardões que a multinacional oferece à tchurma). Então, dois são de equipe, o que inviabiliza a publicação de todo o material em livro. Para resolver isso, colocaram um trechinho ou outro e bola para a frente... Mas o livro é bonito, bem resolvido graficamente e a leitura é muito gratificante. Que texto tem José Hamilton Ribeiro! Que belo texto! Acho que jamais existirá um repórter brasileiro com tamanha capacidade para encontrar o jeito certo de contar uma história. Quando você acaba de ler qualquer uma das reportagens, fica difícil imaginar uma outra forma para narrar aquilo. Gostei mais das duas primeiras, sobre um transplante de rim e sobre as epidemias que assolavam o Brasil dos anos 1960, porque trazem um país pioneiro e miserável ao mesmo tempo. A segunda, principalmente, é assustadora, brilhante. A da Guerra do Vietnã, claro, é duca. A ironia está na circunstância em que Ribeiro perdeu parte da perna esquerda. Ele e um fotógrafo japonês acompanhavam uma patrulha norte-americana, marchando num campo minado. Quando, lá na frente, uma bomba explode, arrebentando alguém, um soldado que ia ao lado da dupla de repórteres incita Ribeiro a correr até o local ("Vamos, focê fará belas fotos"). O instinto jornalista gritou alto dentro do brasileiro, mas no meio do caminho tinha outra mina... A descrição dos 15 dias de convalescência num hospital vietnamita é sublime.
ps. Na apresentação do livro, Ricardo Kotscho escreve: "Zé Hamilton é o melhor argumento para provar, em debates e palestras, que a reportagem é um gênero literário, sim. Frases curtas, diretas, sem enfeites, cortando caminhos sem atalhos para contar uma boa história sobre qualquer assunto para ser lida em qualquer época". ???
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08/01/2007
Uma ausência
Esqueci de dizer, no texto "2006, um ano de boas leituras", um pouco abaixo, que a lista só está ali, consolidada, porque adotei como norma, depois do casamento, anotar o nome dos livros que leio. Quando não anoto, esqueço. Sempre foi assim. (Não lembro, por exemplo, o que li entre janeiro e abril, quando casei).
Mesmo assim...
Hoje, me fizeram descobrir uma ausência: Tempos heróicos, de Jakzam Kaiser! E olha que ele é meu chefe e colega (a vereda da amizade está se abrindo aos poucos) na Letras Brasileiras e que eu li a obra umas três ou quatro vezes antes de ir para a gráfica e outra depois de pronta!!! Pois foi ele mesmo quem percebeu...
05/01/2007
A do dia!
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