12/01/2007

Crônica de Verão 4 / Diário Catarinense

Verão corrido A mulher acordou disposta na manhã daquele sábado. Olhou o rádio-relógio. Eram 8h30. Levantou sem fazer barulho, vestiu-se com uma roupa de corrida. Até tênis calçou. Saiu do quarto sem incomodar o marido, que na noite passada chegara tarde de uma pescaria com os filhos. Ela já dormia, aliás, quando os homens da casa entraram pela porta da sala, fedidos e cansados, carregando três baldes de peixes frescos. Agora, a manhã era sua. Foi à cozinha e espiou o tempo pela janela. Fazia um sol brando, sem nuvens no céu. Havia só uma semana que a aula das crianças terminara (todos passaram por média, graças a Deus) e o maridão entrara em férias. A casa de veraneio, depois de alguns ajustes, já estava nos eixos. Aos poucos todos se adaptavam à rotina da alta temporada. Mas como era difícil! A mulher bebeu um suco de laranja desses de caixinha (promoção no mini-mercado da esquina) e saiu, em direção à praia. Queria correr e espairecer! Por conta de uns desacertos do marido no trabalho, no ano anterior o dinheiro não entrou como nos anteriores. Resumo: o corte de gastos atingiu a empregada doméstica e a faxineira. Ela é que teve de assumir as atividades. 2006 fora cansativo... Mas agora era Verão, época de descanso e das boas coisas da vida. A praia estava lotada. Nas outras duas vezes em que tentara correr pela orla, fracassara. Primeiro porque não estava de tênis, e pouco mais de meia hora com os pés na areia destruíram os seus joelhos, que doeram pelo resto do dia. Depois, porque havia uma infinidade de gente jogando frescobol, batendo bola e futevôlei, enfim, trânsito congestionado como o das rodovias de Florianópolis no fim da tarde... Na manhã desse sábado, porém, a praia estava cheia, mas sem aglomerações à vista. Então e mulher, que não estava para aborrecimentos (é Verão, época de descanso e das boas...), começou o seu cooper. E a manhã transcorreu na mais santa harmonia. No meio do caminho, a mulher até deu umas espiadas nas pernas dos homens sarados que encontrava, sem saber que eles... Bem, era só olhar mesmo, não tentaria convencê-los a "mudar de lado". O tempo passou ligeiro enquanto a mulher correu, praticou, exercitou-se com vontade. Quando deu por si, já tinha ido e voltado várias vezes de um costão a outro. Retornou apressada, parando apenas para comprar uma água de coco estupidamente gelada. Mas ao chegar em casa, a surpresa. O marido e os filhos a esperavam com a cara mais feia do mundo. O pai especialmente, porque estava ao tanque, tratando de estancar o sangue de um corte arranjado na lida de descamar os peixes... – Pombas, mulher! A gente passa a noite pegando peixes pro nosso almoço de sábado e você nem dá bola! Acorda e vai correr na praia! Ora, ora... Vem cá e termina com isso, que eu já até me cortei todo... E a mulher riu de feliz da falta de jeito do seu marido. É Verão...

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