16/11/2009
A crônica de hoje no DC!
Página 7 do caderno Variedades, no Diário Catarinense.
Blasfemo
Serei o profeta de um mundo muito interligado, muito conectado, e tão indiferente. Tentarei fazer música com o alfabeto, artes plásticas com o ponto-e-vírgula. Proclamarei o sépia do outono, o gelo do inverno e direi com os pulmões cheios de ar puro: “Tremei, primavera!”. E depois expedirei a retratação de todos os erros e celebrarei cada vitória da bondade sobre o que é vil, do estilo sobre o que é baixo, da verdade sobre o que é engodo. Mandarei erguer muros em volta das casas, porque ninguém nesse mundo oco precisa saber da existência da Geysi Arruda, nem ser acertado na cabeça pelas vigas do Rodoanel, nem ficar sem luz porque assim quis o destino insondável, que ninguém consegue explicar.
Tratarei, pois, de deixar o planeta ainda mais dividido, com as pessoas cada vez mais alienadas, ainda que cercadas por muros elas continuem muito conectadas, muito interligadas – taxarei a transferência de bits, vou onerar (você conseguiria ler onerarei?) o download de megas. Porque não há sentido na anarquia; é preciso que alguém mande, uma nação obedeça e haja um Judiciário corrupto o bastante para que tudo funcione azeitadamente em desordem, status quo que todo profeta almeja instalar.
Proibirei lombadas, radares, pardais e tudo o mais que tente forçar civilidade no nosso trânsito frenético, entre os nossos motoristas erráticos e nervosos – abaixo a faixa de pedestres, a direção defensiva! E exigirei que cada boteco preste serviços de chapelaria, que cada casa noturna providencie mesas de dominó, que cada bordel volte a ser conhecido por lupanar. No verão, entrarei no clima de prosperidade local e lotearei a areia da praia a preços facilitados: R$ 100 o metro quadrado em Jurerê Internacional, R$ 200 o metro quadrado na Praia da Saudade.
Vou me divertir como profeta, não tenho dúvidas. E se no fim dos tempos qualquer uma das minhas ideias lunáticas tiver permanecido, tiver sido incorporada aos maus hábitos gerais, eu não terei alternativa senão ficar satisfeito e feliz e me prontificar à cruz, à paz eterna, à ressurreição e a tudo o mais que envolve esses assuntos ora financeiros. Quem sabe assim, mártir do mundão interligado, conectado, indiferente e oco, eu não me transforme em um personagem de José Saramago e figure na lista dos best sellers?
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Seu texto é monstro! Parabéns!
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