18/05/2009

A crônica de hoje, no DC!

Página 7 do caderno Variedades, no Diário Catarinense. O vento forte sopra uma canção gelada A chuva martela a persiana da janela do quarto em penumbra, ouço o canto do vento forte desde a madrugada. São 7h15min de uma manhã que se parece muito a um fim de tarde de inverno. A garganta arde, está inflamada, dolorida. Ela dorme sono intranquilo, uma bronquite ainda-a-ser-diagnosticada já lhe roubou a voz, o mal-estar desde ontem a desmonta sem dó. Ela está embrulhada em cobertores, edredom, lençóis, um pijama estampado com tipos florais, estampas de moça, mangas compridas, meias de cor. O Nino nos vela de longe, touca na cabeça, blusão de lã, jeans e tênis esporte. A vontade é não levantar, não abandonar a cama, não dar satisfação a ninguém lá fora, e permanecer deitado suportando a dor de garganta. Inquieto, passo a olhar a janela com raiva, porque se enfia na minha cabeça a ideia de que a persiana maldita não veda a entrada dos vírus – e das friagens – todos. Viro-me de um lado a outro, com jeito, devagar e calmo, para não acordá-la. Não consigo voltar a dormir. Daqui a pouco o despertador berra: a semana nova vai se impor, inapelável. Me arrasto até o fim da cama e ligo o aquecedor. Um calor gostoso me envolve. Lembro então que em Santana do Livramento, lá nos cafundós gaúchos, nas plagas talvez mais esquecidas, o frio deve estar de doer, matando gado e pessoas. Antes que o celular apite, já estou no banho quente. Saio de casa certo de que hoje será um dia em que os tolos se tornarão mais tolos, os de mau-caráter se transformarão em criminosos, os chatos parecerão intoleráveis. Aborrecido, descubro, ao entrar num ônibus com ar-refrigerado ligado, que a única companhia agradável seria a de um personagem de boa literatura. Há dias em que só a literatura conforta. No Centro, pensando nessas coisas, de guarda-chuva aberto, atento a poças d’água e perigos no chão, buracos abertos e pedras no caminho, vejo uma mulher alta, de calças jeans, botas longas, esguia. Puxo o celular e ligo para ela, que ainda dorme. No melhor estilo clássico, olvido a necessidade de um bom livro.

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