11/05/2009
A crônica de hoje, no DC!
Página 7 do caderno Variedades, no Diário Catarinense.
Notícias de Floripa
Por “n” razões, não tenho notícias de Florianópolis. No momento em que escrevo, já quase uma semana me afasta daí. Estou num lugar cinza e áspero, emparedado por entre arranha-céus e sem ver grama, mar, horizonte, o DC e a internet. Tenho passado calor e frio durante o mesmo dia, e algumas vezes lamentei ter esquecido o guarda-chuva em Floripa quando pouquinhos minutos antes abria-se no céu sobre a minha cabeça um sol meio nordestino – como quase todo trabalhador esforçado, solícito e humilde nesta cidade. E, no entanto, nada disso me aborrece: há outras belezas e outras certezas nesta terra sedutora e estranha. O fato é que não lamento a falta de notícias daí. Simplesmente, não sinto nada. E não acho que confessar essa indiferença me deixe em situação delicada.
Se o prefeito da cidade e o governador do estado andaram cometendo discursos, perpetrando medidas, anunciando mudanças, sorrindo para a câmera ou piscando para as câmaras, azar. Se um numeroso e furioso grupo de motoristas de carro promoveu uma passeata surpresa, uma manifestação insuspeitada, bloqueando por toda a cidade as pistas dos corredores exclusivos de ônibus, é da vida e da ideia deles. Se a Ponte Hercílio Luz revelou a fontes secretas que há algo de errado na sua estrutura ou reclamando do atraso na sua reforma, convenhamos que não seja novidade. Se mais uma praia foi descoberta, somando-se às 42 ou 100 já existentes, que mal há nisso? Se o Vento Sul arreganhou os mares da baía, infiltrou-se pelas frestas das janelas, rodopiou no centro da sala e com ele trouxe chuvas e raios e por causa dele ruíram casas e as ruas ficaram alagadas, essa é uma questão vital para os desabrigados e só mais uma aporrinhação para as autoridades. Se mais uma festa regada a champanhe, registrada por fotógrafo pop e embalada pelo melhor DJ do mundo “bombou” em Jurerê Internacional, não vejo aí motivo para surpresa. Se a programação de cinema não está atraente, se os teatros estão vagos, se pinga goteira nos museus, se só ocorreram shows do mais-do-mesmo de sempre, não há o que comentar. Se a classe artística foi parar na Praça XV de Novembro de pires na mão... não me assusta.
Agora, se o Salim Miguel recebeu o prêmio Machado de Assis da ABL, como li num cantinho de jornal daqui, isso me toca e me diz respeito. Eis uma das poucas notícias que eu gostaria de receber aí de Florianópolis, ainda que por outras bocas.
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