Notícia, entretenimento e a cultura do porém
Juan Cruz, editor-adjunto do jornal espanhol El País, sentou-se para falar sobre a qualidade do jornalismo cultural no continente onde vive. É um senhor, jornalista à moda antiga, desconfiado da internet e das novas tecnologias, que, para ele, estão sendo utilizadas de maneira errada e comprometendo a profissão.
A deformação do jornalismo atual ocorre pela abundância de suportes. Está-se criando uma cultura da não verificação das informações, o pilar central do jornalismo, e emitindo-se cada vez mais opiniões que não se baseiam em informações. Cada um publica o que acha oportuno.
Os jornalistas de cultura são preguiçosos: deixaram de investigar o que ocorre no mundo fora das redações, quem está escrevendo bons livros, encenando belas peças, filmando grandes filmes, e só aguarda a chegada de relises que o pautam e o direcionam. Isso gera a equiparação da cultura com o entretenimento, lógica baseada na quantidade e não na qualidade. Para salvaguardarem a sua posição cômoda, os jornalistas estão criando a “cultura do pero”: O livro é muito ruim, porém é um sucesso de vendas e já passou a casa dos 100 mil exemplares; O filme falha em muitos pontos, mas já foi visto por 5 milhões de expectadores.
Uma frase: “Na atualidade, para ganharem as primeiras páginas dos jornais em lugar de algum ator hollywoodiano ou da cantora Amy Winehouse, os escritores Joyce e Proust teriam de derrubar as torre gêmeas”.
Cruz dia que foi um erro da imprensa européia acreditar nos jornais gratuitos. As empresas entraram nessa por causa da “onda de música grátis”, que por sua vez veio da “onda dos downloads gratuitos” etc. Da mesma forma, o New York Times fez uma tremenda bobagem ao abrir seu conteúdo na internet sem cobrar nada. “Como voltar a cobrar algo que agora é gratuito? É o que todas as empresas na Europa estão pensando neste momento”. O jornalista citou ainda uma frase de Harold Evans: “A internet é ladrilho e o jornal, mosaico”.
Para encerrar, fez uma pergunta aos presentes no Tuca: “Vocês já pararam para pensar em quem financia o jornalismo gratuito da internet? Não são os anunciantes, e todos sabemos que nada neste mundo que não seja ilegal é grátis. Pensem bem nisso”. E contou que na Espanha, por exemplo, muitas publicações unicamente online são financiadas por bancos, e nelas não se lê uma crítica sequer ao sistema bancário espanhol. “Antes, leitores e anunciantes sustentavam a descoberta de notícias pelos jornais. Com o jornalismo gratuito, isso vai acabar.”
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