02/02/2009
Artigo no DC: Gente perigosa na Câmara
Página de opinião da edição de hoje do Diário Catarinense.
Gente perigosa na Câmara
Flávio José Cardozo
Escritor
Outro dia, conheci a Câmara de Vereadores. Olhando aquela rampa de acesso, as cascatinhas murmurantes, os painéis, as flores, os balcões, as catracas, as obras de arte, o mobiliário, os parangolés eletrônicos, os gabinetes individuais de nossas excelências, não é possível conter o entusiasmo. Viva!
Ainda bem que é assim, enfatizarão os entendidos em alma do povo, imaginando que por trás do meu viva exista alguma ironia. Pois é, ainda bem, não é mesmo? Beleza é fundamental, de feio basta o corre-corre pela sobrevivência e pelo pagamento dos impostos. Somos chegados a brilhos e lantejoulas, um sábio já disse que a pobreza quer ver é luxo, viva então nosso alegre pendor para as aparências!
Mas como perdoar um certo item nada risonho que há na Câmara? Refiro-me à sua segurança. Tivéssemos no bairro a metade dela e dormiríamos mais tranquilos. Já na entrada, garbosos sentinelas; dentro, outros mais. O visitante chega a pensar: haverá cavalaria? Oh, my God, veremos a Rainha?
Era a sessão que logo depois a Justiça veio a anular por irregularidades. Como o pequeno auditório junto ao plenário já estava lotado (dizem que por serviçais do Poder para evitar a presença de contestadores aos projetos em pauta), subimos a um outro, numa galeria. Maravilha, havia lugares. Mas logo vimos a antipatia das antipatias. Um vidro grosso nos isolava de alto a baixo: víamos de lá a mesa diretora, os excelentíssimos assentos, o surdo crucifixo na parede, as armas reluzentes do município, microfones, computadores, luminárias, mas estávamos numa bolha. Perguntei (em pensamento, pois não adiantaria berrar lá de cima): que medo é esse de um povo sempre tão bonzinho, senhores?
Vi a nossa Câmara Municipal. Concluo meu breve registro dizendo que saí dela com uma frustração e um propósito. A frustração é a de não ter visto a Rainha. O propósito é o de tão cedo não botar lá mais os pés. Consideram-me perigoso no ambiente arrumadinho da Câmara. É, minha gente, somos os perigosos... Nós com nossas caras de tolos, desgraçadamente contribuintes.
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