Na página 7 do caderno Variedades, no Diário Catarinense.
Um obituário de 2008
O ano de 2008, que marcou o início da mais grave crise financeira mundial desde 1930 e foi também um período enriquecedor para o Brasil no que diz respeito a fatos “nunca antes ocorridos na história desse país”, segundo os critérios esquisitos mas engenhosos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, extinguiu-se na noite da última quarta-feira.
A causa mortis, como sabe todo estudante aplicado de Geografia, foi o respeito devoto da humanidade a uma convenção criada em 1582 – o calendário gregoriano –, que atribuiu 365 dias ao ano – e um a mais aos chamados anos bissextos, recurso que corrige os “novos tempos” em relação ao calendário até então utilizado, o juliano.
2008, porém, teve a peculiaridade de desaparecer de maneira diferente da maioria dos seus antecessores, quebrando uma tradição que só os anos valentões – ou desvairados – ousam confrontar.
Por conta da falta de sincronia entre os relógios atômicos e a velocidade de rotação do planeta Terra em seu próprio eixo, o Escritório Internacional de Pesos e Medidas, situado na França, determinou expressamente que 2008 tivesse um segundo a mais do que o previsto na noite de 31 de dezembro de 2007. A informação foi divulgada com alarde poucos dias antes da morte anunciada, mas na verdade, desde 1972, outros 22 períodos de 365 dias já tiveram essa sobrevida de 1 segundo em meio à barulhenta e festiva comemoração de Ano-Novo – detalhe de que, afinal de contas, ninguém se lembra na hora de estourar o champanhe, mas fundamental para a elaboração de um obituário sem destaques relevantes.
Com exceção desse um segundo a mais, 2008 foi um ano tedioso. Muita gente morreu, mas também muita gente foi assassinada. Os carros avançaram um pouco mais no território que ainda pertence aos pedestres. Os livros continuam a ser lidos de maneira sofrida, e até as novelas perderam audiência. Boa parte da humanidade passou 2008 saindo pela manhã de casa para trabalhar, comendo um troço qualquer no restaurante de bufê a quilo na hora do almoço e retornando ao lar cansado no fim do dia, na hora do rush. É verdade que muitos sonhos se realizaram, e talvez até alguns milagres, mas não foram descobertos santos e uma multidão desistiu de sonhar (especialistas garantem que essa foi a causa decisiva para o monumental número de mortos em 2008).
E como se inicia 2009? Com uma guerra na Faixa de Gaza. Assim caminhamos...
05/01/2009
A crônica de hoje, no DC!
A primeira crônica de 2009 é sobre 2008, mas sobre 2009...
Marcadores:
Crônica do DC
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário