A lixeira do condomínio
Levo fé de que a história relatada abaixo é inédita. Só pode ser inédita. Nem o Luiz Carlos Prates, que já viu e ouviu bastante, deve conhecer caso semelhante, apesar de ele próprio já ter alertado seus leitores, ouvintes e espectadores inúmeras vezes: qualquer prédio, qualquer edifício é um pombal, um cortiço, mesmo os milionários. Esta não era a opinião de um casal de amigos meus, o "jovem casal", até que as circunstâncias da vida lhes revelaram umas verdades assustadoras.
Seis meses antes do casamento, os noivos se debruçaram sobre os cadernos de classificados. Procuravam um apartamento antigo: três quartos, dois banheiros, cozinha espaçosa. No primeiro andar de um prédio sem elevadores, com poucos andares, sem porteiro, estacionamento para visitantes, salão de festas, espaço gourmet, cancha de futebol, sala de musculação, parquinho, nada disso. Uma só vaga na garagem estava ótimo. Certo domingo, encontraram um grande apartamento dentro de um predinho. O noivo, querendo não acreditar, ainda inquiriu o proprietário do 101:
- É verdade que não há criança aqui?
O senhor respondeu:
- É uma pena, mas somos todos de idade. Só há um bebê, filho de dois jovens.
O jovem casal passou a admirar ainda mais o condomínio. De fato, não havia crianças. O edifício era uma paisagem de velhotes e velhotas, para lá e para cá, arrastando-se pelas escadas, apoiados nos corrimãos, carregando sacolas de supermercado, saindo para passear com cachorros frágeis. Sempre discretos, educados, civilizados. Que lugar!
Tudo ia bem, até uma noite quando, ao chegar do serviço, o marido encontrou na caixa de correio uma carta da síndica: "Esta semana tivemos de realizar uma operação de limpeza em nossas caixas de esgoto. O que os funcionários da empresa contratada encontraram nas tubulações deixou-me muito envergonhada. Custa crer que...".
O jovem casal não podia acreditar. Mas era verdade: a carta trazia uma fotocópia da nota fiscal, cuja conta falira o fundo de emergência. Na "descrição dos serviços", a relação do que fora sugado pela desentupidora: fraldas, absorventes, preservativos, meias-calças, calcinhas, esponjas de aço, panos de chão e até um espartilho. Desde então, o jovem casal sente um constrangimento tremendo dos vizinhos. E o marido lamenta, com a mão na testa: "Moramos num jardim-de-infância!".
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