03/11/2008

Sala de leitura 2

Nunca tinha ouvido falar em David Foster Wallace, até ler a notícia de que ele sucidou-se, meses atrás. A piauí de outubro (sim, consegui ler alguma coisa desta edição!) trouxe um discurso que ele fez para os formandos do Kenyon College, em 2005. É um dos melhores textos que já li, porque lá pela metade ocorreu-me aquela epifania que só a arte (ou o artista?) proporciona: a de você estar diante daquilo que sempre pensou e jamais conseguiu elaborar conscientemente, nem expressar com clareza. O que Foster Wallace pede aos formandos é para que tomem uma decisão difícil, dolorosa, e que talvez tenha bastante a ver com o seu triste fim. Mas, assim como ele, penso que é preciso tomá-la, apesar das conseqüências (indiferença, descrédito, "tô nem aí" e uma força poderosa tentando convencê-lo de que não vale a pena). O que ele pede aos garotos foi exatamente a escolha que fiz, exatamente tudo o que sempre ruminei cá comigo, adolescência afora – razão pela qual eu gostaria de ter escrito esta pequena obra-prima. Uma lágrima e um obrigado a Foster Wallace. A liberdade de ver os outros David Foster Wallace Dois peixinhos estão nadando juntos e cruzam com um peixe mais velho, nadando em sentido contrário. Ele os cumprimenta e diz: – Bom dia, meninos. Como está a água? Os dois peixinhos nadam mais um pouco, até que um deles olha para o outro e pergunta: – Água? Que diabo é isso? Não se preocupem, não pretendo me apresentar a vocês como o peixe mais velho e sábio que explica o que é água ao peixe mais novo. Não sou um peixe velho e sábio. O ponto central da história dos peixes é que a realidade mais óbvia, ubíqua e vital costuma ser a mais difícil de ser reconhecida. Enunciada dessa -forma, a frase soa como uma platitude – mas é fato que, nas trincheiras do dia-a-dia da existência adulta, lugares comuns banais podem adquirir uma importância de vida ou morte. Boa parte das certezas que carrego comigo acabam se revelando totalmente equivocadas e ilusórias. Vou dar como exemplo uma de minhas convicções automáticas: tudo à minha volta respalda a crença profunda de que eu sou o centro absoluto do universo, de que sou a pessoa mais real, mais vital e essencial a viver hoje. Raramente mencionamos esse egocentrismo natural e básico, pois parece socialmente repulsivo, mas no fundo ele é familiar a todos nós. Ele faz parte de nossa configuração padrão, vem impresso em nossos circuitos ao nascermos. Continua aqui.

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