03/11/2008

A reportagem do ano

Vou parecer chato, mas fazer o quê. Acabo de ler a reportagem do ano, na piauí de outubro – e só não tratei dela muito antes porque, como expliquei uns posts abaixo, só recebi a edição de outubro da revista no dia 31 de outubro. João Moreira Salles passou um ano apurando a história de Francenildo dos Santos Costa, o ex-caseiro que afirmou, primeiro ao Estadão e depois à CPI dos Bingos, em 2006, que Antônio Palocci freqüentava a casa no Lago Sul, em Brasília, onde lobistas de Ribeirão Preto (SP) davam festões e faziam outras atividades. A reportagem vai do antes ao muito depois, passando por todos os momentos decisivos. É quase um documentário, em formato de 12 páginas. Obra-prima de reportagem. Abaixo, a abertura, com link para a íntegra. O ideal é comprar a revista e ler no papel, como se fosse um conto de alto nível – impossível largar. O caseiro De como todos os poderes da República - Executivo, Legislativo, Judiciário, polícia, imprensa, governo, oposição - moeram Francenildo dos Santos Costa por João Moreira Salles Francenildo dos Santos Costa era caseiro, tinha 24 anos, quatro bermudas, três calças jeans, cinco camisetas, três camisas, cinco cuecas, três pares de meia, dois pares de tênis, um sapato e um salário de 370 reais quando tudo começou, em março de 2006. Com quadra de tênis, campinho de futebol, piscina e churrasqueira, a casa de que tomava conta desde 1999 era grande, mas discreta. Ficava no final de uma rua sem saída, num pequeno largo formado por cinco casas. Era bege, tinha dois andares e câmeras de segurança no telhado. Sua particularidade eram dois grandes portões de chapa de ferro, brancos, um na frente e outro atrás. O terreno dava fundos para uma via expressa, de modo que um carro poderia deixar a casa sem ser visto. Francenildo e a mulher, Noelma, moravam numa edícula nos fundos do terreno. Em 2003, o proprietário da casa, o advogado Luiz Antonio Guerra, decidiu alugá-la e entrou em contato com um corretor chamado João Gustavo Abreu Coutinho. João Gustavo trazia clientes para visitar o imóvel, Francenildo abria a porta e ajudava a mostrar as dependências. Com o tempo, os dois ficaram próximos, camaradas. Um dia, o corretor apareceu com um homem de meia-idade, rechonchudo e simpático, de cabelos ralos e um bigode largo que lhe caía feito um circunflexo sobre a boca. Chamava-se Vladimir Poleto. Vinha de Ribeirão Preto, no interior paulista, e falava em nome de um grupo de amigos que procuravam uma boa casa na capital federal. Depois de percorrer o jardim, avaliar a piscina, medir a sala e ver os quartos, pareceu satisfeito. Abriu a porta do carro e, antes de dizer ao motorista Francisco das Chagas que partisse, avisou ao corretor que entraria em contato. O negócio foi fechado no dia seguinte. Vladimir Poleto praticamente dobrou o salário do casal de empregados: “Agora você vai ganhar 700 reais e tua mulher também.” Francenildo se alegrou, e não teve problema em concordar — “Claro, é o senhor que está me pagando” — quando Poleto estabeleceu as novas regras: “O que acontecer aqui, você não conta a ninguém, principalmente ao dono da casa.” Logo veio a mudança. “Encostou um caminhão grande e foi descarregando cama. Só tinha cama e mais um sofá, geladeira, televisão e um aparelho de som”, lembra Francenildo. “A mulher até comentou: ‘Oxe, só tem cama?’” Mobiliaram os quartos e deixaram as salas quase nuas. Compraram uma mesa de sinuca. A casa ficava vazia boa parte do tempo. Seu uso era restrito a festas, duas por semana, que varavam a noite. Francisco das Chagas, o motorista, trazia as convidadas. O caseiro preparava a carne, acendia a churrasqueira e gelava a cerveja. Volta e meia Poleto lhe acenava com um espeto na mão: “Fica aqui, come uma carninha, toma uma cervejinha...” Era um sujeito simpático. Aos poucos, Francenildo foi conhecendo o grupo, liderado pelo advogado Rogério Buratti. Eram todos homens de Ribeirão, onde haviam se conhecido durante as duas administrações do Partido dos Trabalhadores. Alguns mexiam com máquinas lotéricas, outros ocupavam cargos públicos. Havia um funcionário da Caixa e um homem de formação mais modesta, secretário de ministro, além de convidados ocasionais, como um homem baixo, calvo e bom de sinuca. Poleto havia feito uma boa escolha. A casa atendia às necessidades do grupo, era afastada. “Só tem a casa ali do lado”, comentou com um amigo. “É de uma jornalista.” “Pô... Jornalista?”, reagiu o outro. Na segunda semana, avisaram Francenildo: “Olha, o chefão quer conhecer a casa.” Providenciou-se salaminho, latinhas do energético Red Bull e vinho. Arrumaram a mesa da cozinha, deixaram uns salgadinhos, guardanapos de papel e duas taças de cabeça para baixo. Naquela vez não haveria churrasqueira. “Vai ser discreto”, disseram antes de partir. Pediram ao caseiro que não saísse da edícula. Por volta das oito da noite, ouviu-se o mecanismo do portão. O carro estacionou no pátio interno sob a luz de holofotes regulados por sensor eletrônico. No quarto escuro, Francenildo e Noelma ergueram a cabeça e, como hipopótamos, deixaram apenas os olhos acima da linha d’água do peitoril. A porta do carro se abriu. “Aquele é o ministro da Fazenda”, cochichou Francenildo. Continua aqui.

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