21/11/2008

Nanoperfil: F. Scott Fitzgerald

O textinho abaixo é de julho de 2005, e estava esquecido na caixa de e-mail. Mas serve para inaugurar a nova seção do blog, Nanoperfil. A explicação oficial, bem-intencionada: a seção trará minúsculos perfis de escritores e artistas, escritos com o propósito de "resumi-los". Que roubada, hein?
Francis Scott Fitzgerald
Francis Scott Fitzgerald atravessou de um lado a outro a avenida larga e pouco movimentada de carros àquela hora da manhã com passos arrastados, flanando num tempo alheio ao momento e à hora. Tinha na cabeça uma frase impossível, de um enredo que lhe parecia e soava improvável.
Ele vinha buscando a tal frase com tenacidade, numa luta inglória, vã, desde a última taça de champanhe, que ele derramara no colo, na noite anterior. Talvez fosse a irritação do ato desastrado que estivesse lhe atravancando as idéias. A festa ocorrera na casa de Meg Hielty, uma grã-fina que ele odiou desde o primeiro olhar de esguelha, e foi por sua insistência que ele servira a si mesmo uma taça da bebida, após doses e doses e doses intermináveis de uísque. A acidez frutada o nauseou. Aborrecido, com a expressão grave de alguém que se dirige a um funeral ou a um velório, já na calçada do outro lado da avenida cinza, ele pensava na frase e se irritava a ponto de formigarem as orelhas. Lembrou-se de Zelda, do devaneio da mulher maluca. "Que desagradável – dizia consigo mesmo ao pular uma poça d'água – ter a cabeça em chamas, imprestável, devido a um banho de espumante barato e insípido. Eu deveria pedir ressarcimento em dólares àquela gordinha insuportável. Ela foi a mentora de um crime de lesa-intelecto. Oh, onde está a maldita frase?!" Fitzgerald parou de súbito, como se assustado pelo berro que soltara em pensamento, e olhou à sua direita. Estava diante do Ritz. Suspirou, e entrou empurrando a porta contra a parede. Posto o pé no tapete vermelho que conduzia ao bar dos fundos, ele já caminhava com um ar diferente. Com passos de primeiro-mandatário da República da Literatura Americana.

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