24/11/2008

A crônica de hoje, no DC!

Página 7 do caderno Variedades, no Diário Catarinense. Terra da garoa
Acredito em todas as mentiras, mas gosto é das mentiras que alguém me conta sobre si mesmo. Um amigo jura, pela memória de seus antepassados mineiros, que ele e a Camila Pitanga, ainda atriz iniciante, quase rolaram de amor no gramado do Maracanã. Ah, que bela fábula. Aliás, sei de um mentiroso que precedeu em imaginação o meu amigo das Gerais. O rapaz exibia-se que certa noite, num baile de carnaval do LIC, a Camila Pitanga, ainda criança, o teria agarrado à força! Veja só. Mesmo assim, creio nos dois sortudos. Quinta, porém, ao chegar em casa a minha credulidade foi desafiada. Ao jogar as roupas molhadas que trouxera da rua na máquina de lavar, ouvi o lamento:
- Chega de água, meu Deus!
Era o meu guarda-chuva fabricado na Itália, atirado no tanque. Assustado, percebi que se tratava de um guarda-chuva passional, felinniano - mestre em narrar mentiras verossímeis. Com a boa vontade de sempre, deixei que fizesse do tanque o seu divã:
- Há três meses não tenho descanso. Vou da mochila para a sua mão, daí para as latas de lixo, e de lá para a mochila. Tenho sofrido crises de claustrofobia. Já fui chutado, amassado e arrastado. Já bati em muros, grades, portas, postes. E você nem bola. Quando vamos a restaurantes, sou obrigado a aturar guarda-chuvas brasileiros dentro de latas velhas, enquanto você come filé com fritas. E quando me empresta para alguém necessitado e a pessoa me fecha à força, sem apertar o botão de acionamento automático? Ah, como padeço... Quando se põe a caminhar pelo calçadão, é aquela briga: vou distribuindo e recebendo trombadas. Pelo menos você tem a consciência, a educação superior de não caminhar comigo aberto sob as marquises, por onde trota o povão desprevenido. É incrível; fiz minha viagem para o Brasil numa caixa que dizia: "Destino: São Paulo". Eu sempre achei que São Paulo fosse a terra da garoa, e fiquei feliz ao saber que migraria para Florianópolis. Floripa, a cidade das 100 praias! Mas eis o destino: a Ilha virou a terra da garoa. E o pescador disse que a chuva só vai parar no fim de janeiro! Sou mesmo um caipora, Dio mio...
O elogio me envaideceu. Mas essa chuva de meses havia muito embotara o meu humor, e achei o guarda-chuva besta demais. Por isso, hoje vou comprar outro, desses que os ambulantes vendem no terminal a R$ 5 na garoa e a R$ 15 ou R$ 20 no temporal.

3 comentários:

  1. Ou melhor, 60reais.
    Tiveram a audácia de me pedir por um guarda-chuva (oh! de alumnínio).

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  2. Putz! É a inflação da tragédia!

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  3. Anônimo18:22

    reizinho, o eduardo ADOROU essa crônica. comentou, todo empolgado, comigo ontem, e esqueci de repassar o elogio. beijo,
    jade

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