17/11/2008

A crônica de hoje, no DC!

Página 7 do caderno Variedades, no Diário Catarinense.
Culpado
Não, não, obrigado: eu vou é caminhar. Não quero mais saber da sua carona. Não quero mais subir em ônibus cheios, amarelinhos com o rádio ligado, nem contratar taxistas mal-humorados ou motoboys suicidas. Não quero mais saber dessas filas e buzinas, dessas grosserias que a maioria vomita enquanto dirige. Não quero mais passar pelo trauma, e pelo constrangimento, de ver acidentes, carne aberta, sangue vermelho na estrada, o rabecão a postos. Também não quero assistir àquela cena bem brasileira, em que o motorista de um importado bate numa lata-velha, engata a ré e vai embora sem resolver o assunto com o sujeito, que abraça o prejuízo. Cansei de ficar preso dentro do carro nos dias de chuva, nos dias de sol, nos dias em que bate vento Sul e nos dias em que não bate vento algum. Cansei também de ter de aturar os flanelinhas que tomam o lugar do estado, o estado que imita os flanelinhas e cobra pelo estacionamento em vias públicas, as faixas amarelas nas calçadas, as placas de proibido, os flashes disparados sem que se cruze o sinal fechado. E os carros parados em fila dupla? E os que oferecem suborno ao guarda, e o guarda aceita? Não, não, por favor. Eu vou agora é na pernada.
Quem tem carro particular reclama do trânsito. O motorista do ônibus até resmunga sobre alguma tranqueira de vez em quando, mas no geral, quando um passageiro desaforado pergunta-lhe o que pensa daquela pouca vergonha, ele responde um "Tenho nada com isso não" e segue o seu percurso, perseguindo o seu pouco salário. Agora, quem tem carro do ano, carro importado, carro popular, carro quitado ou carro financiado a perder de vista... Reclama, e escreve aos jornais, e nos telejornais só reclama se estiver sentado dentro do automóvel, trancado no cruzamento, parado na fila que já dura quarenta minutos. Acomodado, confortavelmente, segurando o volante, ele aponta os responsáveis pelo descalabro: o governo, os ciclistas, os veículos que fazem o transporte público, os pardais, os táxis, os radares da PRE, o excesso de lombadas eletrônicas, a proliferação de lombadas de cimento, a grande quantidade de faixas de pedestre e a imprudência cada vez mais descabida deste, os vendedores ambulantes que infestam os semáforos, a proibição besta de furar o sinal vermelho, as corridas, as passeatas, os protestos, as paradas, os guardinhas. Só o motorista não é culpado.

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