Abaixo, começo da bela e forte crônica do Marcelo Rubens Paiva, publicada sábado no Estadão – leitura que mexeu com a Regina Carvalho a ponto de quase fazê-la fechar o seu blog, Coisas de Regininha. Com a "repercussão" da história, ela se explicou melhor: felizmente vai continuar publicando no blog as suas crônicas de quinta-feira do jornal A Notícia, e o que mais lhe der na telha, mas sem compromisso com o dia-a-dia...
Vende-se eu
Marcelo Rubens Paiva
Na semana passada, Zezé Polessa participava do programa Happy Hour (GNT), que debatia os traumas de uma separação. Em sua camisa, lia-se um paradoxo: "Não sou feliz, mas tenho marido".
Me intrigou o significado e o capricho do figurino. Então, pensei, que excelente recurso! Da próxima vez que eu participar de um debate, terei no peito pinceladas do pensamento dialético, para polemizar e enriquecê-lo.
Foi uma decepção quando, no fim do programa, revelou-se que ela divulgava, na verdade, um espetáculo teatral que protagoniza chamado Não Sou Feliz, Mas Tenho Marido.
Zezé tem o direito de divulgar o que quiser, como quiser. Mas inaugura um procedimento que causará um ruído visual na tevê brasileira. Então, atores, cineastas, músicos e escritores trarão no peito o logotipo da obra que pretendem divulgar, transformando o seu corpo num outdoor ambulante, que anuncia a si próprio, vende uma obra.
Lembrei-me dos anos 80, em que condenávamos o culto à imagem pessoal. Éramos de corpo e alma concentrados politicamente numa causa, baseada no dito de Brecht: pobre do povo que precisa de heróis.
Herdeira de uma luta armada fracassada, de um projeto de utopia que deu no stalinismo e no maoísmo, órfã de ideais, a geração 80 não confiava em timoneiros ou comandantes, mas na revolução pelas arte e, principalmente, pela intervenção cultural. Por isso, foi tachada pela velha esquerda de Geração AI-5 ou Geração Coca-Cola. "A gente somos inútil", foi a resposta.
Continua aqui.
amo o marcelo. texto excelente.
ResponderExcluirAcho que o texto apenas exprimiu uma idéia dele, nada que seja absolutamente uma verdade inquestionável.
ResponderExcluirEu gostaria de fazer uma pergunta pro Marcelo, está entalada na garganta desde os anos 80, quando eu li Feliz Ano Velho. No livro ele fala sobre a musa Lídia Brondi, será que ele chegou a conhecê-la? A realidade teria desmistificado a musa???
Também gosto do texto, Publicitária. Sincero, honesto e bem-escrito. Sobre a Lídia Brondi, Anônimo, só perguntando pra ele, hehe. Por sinal, MRP agora tem um blog no portal do Estadão. Por que não visitá-lo e deixar a ua pergunta?
ResponderExcluirAbraços
Ótimo texto. Adorei a parte do culto a imagem; como seria bom se aquela geração comprometida tivesse tido êxito em sua luta contra a superficialidade pregada pelo sistema capitalista. Os jovens de hoje não só não são contra a cultuação da imagem; são, na verdade, os maiores admiradores de uma aparência moldada pelo que a sociedade de consumo impõe.
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