Na quinta-feira passada, a livraria Livros & Livros comemorou 20 anos de existência com um coquetel na loja do Centro. Fui, comprei Stasilândia, de Anna Funder, recém-lançado pela Cia das Letras (Coleção Jornalismo Literário), O povo do abismo, reportagem de Jack London, da editora da Fundação Perseu Abramo, e encontrei amigos. Reproduzo abaixo a crônica do Dennis Radünz, que estavá lá, publicada na coluna dele no jornal Diário Catarinense, caderno Variedades. Porque admiro o olhar do cronista, e pela citação generosa.
Livros vezes livros
Dennis Radünz
Da pedra à argila, do papiro ao papel, a escrita migrou através de levas e levas de solidões humanas. De milênio a milênio, a escrita foi tocada por estiletes, hastes, buris, penas, esferográficas, cursores, mas nenhum de seus suportes físicos comportou tantas alegrias táteis como o objeto livro. O Livro. De se pensar que é por causa das árvores compactadas na massa do papel? Da sensação de coisa viva que perpassa a superfície do papel impresso? Do objeto de imatéria que é o livro, porque não é a ele que consumimos, mas o que transporta?
Os 20 anos duma livraria - na cidade desistida ao centro da Ilha de Santa Catarina - são também as duas décadas de maratona de um espaço de culturas, de obstáculo a obstáculo, e não por acaso Daniel, o livreiro, se atemoriza com o futuro próximo, comparando esse 20º aniversário à última explosão muscular do corredor instantes antes da linha de chegada, para desfalecer depois, para cair, falir, talvez. Ainda assim, estávamos em muitos naquele nicho aceso, entre os livros que nos espreitavam com suas vastidões guardadas - Mobys Dicks, Ulisses, Sagaranas.
No mezanino, as figuras desenhadas de Clarices, Cecílias, Joões da Cruz e Sousa, Machados ou Pessoas se reproduziam a cada olhar, como nos mistérios da imprensa, enquanto, do outro lado, no alto, a face melancólica e ridente de Franz Kafka nos via como se visse aparições nos pontilhões de Praga. E era a festa. Uísques, vinhos e capuccinos. E descontos.
Nem se sabia ao certo o que comemorávamos, porque não é de eternos o destino de uma livraria que aniversaria. É um comércio, à mercê das leis da oferta e da procura, mas é comércio de matéria escrita, coisa dia a dia mais rara e aparentemente obsoleta devido as gerações de aparelhos eletrônicos que tornam obsoletíssimos os modelos do mês passado.
Entre as estantes, toda espécie de leitores, os meticulosos, os caóticos, e os escritores, riso à solta de Alcides Buss, a polêmica mais nova de Fábio Brüggemann, os silêncios de Felipe Lenhart, o ruidoso Marco Vasques, o copo de vinho tinto na língua de João Carlos Mosimann e o Miro Morais e o Pedro Port e o Rodrigo de Haro e Tânia Piacentini e eu que nasci irônico baudelairiano.
Estávamos todos prontos para o fôlego, correríamos com Daniel Mayer até as linhas de chegada, nem que para isso fundássemos novas bibliotecas nesse mundo ilegível, feito os mosteiros da Idade Média, onde guardássemos livros vezes livros. Monges e maratonistas (e não sei porque políticos, toda espécie de político, têm tanta ojeriza a educação pública gratuita).
Entre uma ou outra amenidade, simulei um interesse na fisionomia e pude devanear à sós, "no meio do redemunho", atrás de um livro que eu quisesse como se quer a uma mulher deliciosa - pensei na história de Taffy, a menina do neolítico que Rudyard Kipling diz ter inventado o alfabeto:
" - Papai, eu imaginei um segredo-surpresa. Faça um barulho, não importa qual. - Ah! - exclamou Tegumai. - Isto serve para começo? - Sim - responde Taffy. - você tem o ar de uma carpa com a boca aberta."
E a menina desenhou na casca de uma árvore uma carpa com a boca aberta, com antenas, e a carpa, segundo Kipling, passou a ser a coisa para o nome "Ah!", o sinal gráfico representou o som e o mundo humano passou então a ter sentido.
Recordo exatamente de que página extraí essa citação, a de número 200 de História da Escrita. Mas não basta. Queria ouvir de Kipling, queria encontrar na livraria a edição de Histoires comme ça, queria ouvir da própria menina Taffy, do neolítico, a história de "como nasceu o A"...
Mas um ou outro me interrompe e volto ao instante-já dos 20 anos da livraria, ao presente de que nunca saímos ou sairemos, exceto pelos livros vezes livros que nos transportam como se fôssemos mais do que somente a assonância entre matéria e imatéria.
Toda livraria é uma linha de chegada. Livrarias são plataformas de embarque.
Livros vezes livros
Dennis Radünz
Da pedra à argila, do papiro ao papel, a escrita migrou através de levas e levas de solidões humanas. De milênio a milênio, a escrita foi tocada por estiletes, hastes, buris, penas, esferográficas, cursores, mas nenhum de seus suportes físicos comportou tantas alegrias táteis como o objeto livro. O Livro. De se pensar que é por causa das árvores compactadas na massa do papel? Da sensação de coisa viva que perpassa a superfície do papel impresso? Do objeto de imatéria que é o livro, porque não é a ele que consumimos, mas o que transporta?
Os 20 anos duma livraria - na cidade desistida ao centro da Ilha de Santa Catarina - são também as duas décadas de maratona de um espaço de culturas, de obstáculo a obstáculo, e não por acaso Daniel, o livreiro, se atemoriza com o futuro próximo, comparando esse 20º aniversário à última explosão muscular do corredor instantes antes da linha de chegada, para desfalecer depois, para cair, falir, talvez. Ainda assim, estávamos em muitos naquele nicho aceso, entre os livros que nos espreitavam com suas vastidões guardadas - Mobys Dicks, Ulisses, Sagaranas.
No mezanino, as figuras desenhadas de Clarices, Cecílias, Joões da Cruz e Sousa, Machados ou Pessoas se reproduziam a cada olhar, como nos mistérios da imprensa, enquanto, do outro lado, no alto, a face melancólica e ridente de Franz Kafka nos via como se visse aparições nos pontilhões de Praga. E era a festa. Uísques, vinhos e capuccinos. E descontos.
Nem se sabia ao certo o que comemorávamos, porque não é de eternos o destino de uma livraria que aniversaria. É um comércio, à mercê das leis da oferta e da procura, mas é comércio de matéria escrita, coisa dia a dia mais rara e aparentemente obsoleta devido as gerações de aparelhos eletrônicos que tornam obsoletíssimos os modelos do mês passado.
Entre as estantes, toda espécie de leitores, os meticulosos, os caóticos, e os escritores, riso à solta de Alcides Buss, a polêmica mais nova de Fábio Brüggemann, os silêncios de Felipe Lenhart, o ruidoso Marco Vasques, o copo de vinho tinto na língua de João Carlos Mosimann e o Miro Morais e o Pedro Port e o Rodrigo de Haro e Tânia Piacentini e eu que nasci irônico baudelairiano.
Estávamos todos prontos para o fôlego, correríamos com Daniel Mayer até as linhas de chegada, nem que para isso fundássemos novas bibliotecas nesse mundo ilegível, feito os mosteiros da Idade Média, onde guardássemos livros vezes livros. Monges e maratonistas (e não sei porque políticos, toda espécie de político, têm tanta ojeriza a educação pública gratuita).
Entre uma ou outra amenidade, simulei um interesse na fisionomia e pude devanear à sós, "no meio do redemunho", atrás de um livro que eu quisesse como se quer a uma mulher deliciosa - pensei na história de Taffy, a menina do neolítico que Rudyard Kipling diz ter inventado o alfabeto:
" - Papai, eu imaginei um segredo-surpresa. Faça um barulho, não importa qual. - Ah! - exclamou Tegumai. - Isto serve para começo? - Sim - responde Taffy. - você tem o ar de uma carpa com a boca aberta."
E a menina desenhou na casca de uma árvore uma carpa com a boca aberta, com antenas, e a carpa, segundo Kipling, passou a ser a coisa para o nome "Ah!", o sinal gráfico representou o som e o mundo humano passou então a ter sentido.
Recordo exatamente de que página extraí essa citação, a de número 200 de História da Escrita. Mas não basta. Queria ouvir de Kipling, queria encontrar na livraria a edição de Histoires comme ça, queria ouvir da própria menina Taffy, do neolítico, a história de "como nasceu o A"...
Mas um ou outro me interrompe e volto ao instante-já dos 20 anos da livraria, ao presente de que nunca saímos ou sairemos, exceto pelos livros vezes livros que nos transportam como se fôssemos mais do que somente a assonância entre matéria e imatéria.
Toda livraria é uma linha de chegada. Livrarias são plataformas de embarque.
é o meu bonequinho, lindo e silencioso. amo-te, rei.
ResponderExcluirbeijo da tua linduda.