Assistimos ontem à Tropa de elite, filme de José Padilha que chegou às mãos dos camelôs antes de ser exibido nas salas de cinema. Acompanhei a repercussão do lançamento oficial, no Cine Odeon, na abertura do Festival do Rio, em setembro. Jornalistas de O Globo escreveram que o filme é fascista, o ator Wagner Moura retrucou com um artigo, blogs e outros jornais, inclusive O Estado de S. Paulo, que assino, começaram a discutir o filme, deram-se ao trabalho de falar mal dos espectadores que urram de alegria a cara tiro da polícia, um ator se envolveu com a venda do DVD pirata, gente da produção foi chamada a depor etc. A vontade de assisti-lo bateu com a entrevista de Padilha no último Roda Viva.
E o filme, como foi a entrevista, é ótimo. A Jade acha o capitão Nascimento um dos grandes personagens do cinema nacional. Deve ser. Há falas memoráveis dele na narração em off, que divertem e provocam mesmo que você não concorde com elas, como “Só universitários com consciência social não entendem que guerra é guerra”. O que mais incomoda no filme, para quem já conhece alguma coisa de tortura policial, crime organizado e um pouquinho de como esses dois mundos se inter-relacionam, é o discurso “a culpa é do usuário”. “Bah, baita papo-furado”, como diria um personagem de Tempos heróicos, o romance do Jakzam Kaiser. Se o uso de entorpecentes, tóxicos, drogas ou o que for, acontece desde sabe-se lá que século, o problema não pode ser do usuário, mas do comprador. Eis tudo.
Uma confissão: a situação pessoal do capitão Nascimento, clara conseqüência do seu trabalho, me pareceu mais intolerável do que os seus métodos.
Segunda confissão: o amigo Mauricio Xavier sempre me garantiu que o Rio de Janeiro é um lugar sinistro, onde o inacreditável pode acontecer. E eu sempre achei que ele exagerasse, para divertir seus interlocutores da província Florianópolis... Ele não estava brincando.
ps. Entre muitas reportagens excelentes, a revista piauí de setembro trouxe uma sobre o trabalho de um perito policial na cidade do Rio de Janeiro. Dá para imaginar ofício mais inviável? Leia a abertura abaixo.
Em busca do cadáver
O que faz um perito policial, com quais equipamentos trabalha, e qual o resultado da sua análise científica de assassinatos nos Rio de Janeiro.
ROBERTO KAZ
Eram 8 e meia da manhã de uma quarta-feira recente, no Instituto de Criminalística Carlos Éboli, órgão da polícia civil responsável pela perícia criminal no Rio de Janeiro. Na unidade da Penha, o perito Marcos Luiz Gonçalves, ou Marcão, como é conhecido, estava sentado em um sofá rasgado, diante de uma televisão de 14 polegadas. Assistia a um telejornal em volume exageradamente alto. O telefone tocou e ele recebeu a notícia de um homicídio em Benfica, bairro das cercanias. Marcão desligou a TV e abriu seu armário, de onde tirou uma pistola calibre 380 e um fuzil 556. Enquanto enchia sete pentes de fuzil com 25 balas cada, anteviu a cena do crime:
– Quer que eu adivinhe? Vamos chegar lá, o cara vai estar coberto por um plástico qualquer. Vai ter um monte de gente cercando o cadáver, como se fosse estrela de novela das oito. Vamos ter que pedir licença para trabalhar. Alguém vai aparecer com os cartuchos na mão, dizendo tê-los encontrado por perto.
Continua aqui.
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