27/10/2007
Cinema
Nova câmara para a favela
JADE MARTINS LENHART/ Jornalista e doutoranda em Teoria Literária na UFSC
Com o polêmico Tropa de Elite, em cartaz há duas semanas em Florianópolis, o diretor José Padilha constrói uma nova abordagem da relação entre traficantes e policiais, tema assíduo nos últimos anos, e articula um salto na história do cinema nacional mesmo diante da enxurrada de interpretações equivocadas de crítica e público. Violento, forte e contundente como o livro no qual é baseado, Elite da Tropa, o longa revela maturidade justamente ao reunir o bem e o mal num universo difuso e pouco dicotomizado. No inferno entrevisto em cena, quase todos têm boas intenções, e este talvez seja o maior avanço do filme na direção da complexidade.
Pirateado por centenas de milhares de curiosos, oferecido nos camelôs como artigo de urgência, Tropa de Elite já colecionava adjetivos antes mesmo do lançamento: violento, genial, tosco, brilhante, de direita, fascista. Alguns exaltaram os atributos técnicos do filme e a coragem das denúncias, a truculência do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), facção da Polícia Militar com uma caveira no uniforme, mas esses foram poucos. Parte da crítica insistiu no caráter reacionário do enredo, um policial disposto a "limpar" a área a qualquer preço, nem que seja necessário transformar torturas de menores e assassinatos a sangue frio em rotina. A polêmica encontra explicação dentro da própria história do cinema brasileiro: é difícil encontrar no cinema social, sobretudo aquele que vai narrar a favela, o grau de ambigüidade sugerido aqui pelo diretor de Ônibus 174.
Capitão Nascimento, o policial justiceiro, Lampião contemporâneo, é extremamente violento mas é também incorruptível. Tortura menores em suas operações de praxe ao mesmo tempo em que não tolera qualquer gorjeta. Ganha uma miséria, porém acredita no sistema. É o melhor da sua categoria mas sofre de síndrome de pânico. Ameaça empalar um garoto que escondeu um traficante foragido e troca a fralda de seu filho recém-nascido quando chega em casa. Sem dúvida, ele acredita que está construindo um país melhor - o que torna tudo mais chocante. Pois é justamente a humanidade de capitão Nascimento de Wagner Moura que parece confundir parte dos espectadores e da crítica: os primeiros aplaudiram seus feitos ao fim da sessão, ato que repugnou o cineasta, os segundos confundiram o discurso do policial crédulo e esperançoso com as idéias do diretor, e acusaram o filme de fascista.
Em entrevista no programa Roda Viva, da TV Cultura, José Padilha afirmou claramente que enxerga no problema do tráfico carioca uma guerra, mas nem mesmo neste imbróglio defende o tipo de violência praticado por seu protagonista. Chocado com as interpretações, mas confiante que as sugestões não estão no seu filme, e sim na cabeça dos espectadores que transformaram o policial em herói, Padilha expõe sem dificuldade suas reais intenções: fazer um filme de denúncia contra a polícia. Por isso, explicou, capitão Nascimento, incorruptível e competente, aparece em cena torturando um menor de idade com um cabo de vassoura. A revista Veja parece não ter compreendido à mensagem. Na edição de capa sobre o filme, endossa o discurso reacionário de capitão Nascimento, da polícia, portanto, culpando os "maconheiros da Zona Sul" de trabalharem junto ao tráfico. Vai mais longe no discurso do "herói": se para Nascimento os estudantes financiam o tráfico, para a Veja eles são sócios, o que pressupõe algum tipo de lucro ou benefício que vai além da recreação ou da saciedade de uma dependência química.
A mesma ambigüidade complexa do capitão encontra eco nas outras personagens. Os estudantes de classe média criam ONGs no morro mas parecem presos a ideais sociais apenas aparentes: no cotidiano do trabalho, sentam no chão e fumam maconha à tarde inteira. No discurso de capitão Nascimento, são também financiadores do tráfico, como todos os "maconheiros de merda", em última instância.
Colabora para o clima tenso, de inversão total dos valores, a narrativa em primeira pessoa, dirigida, não por acaso, pela personagem do capitão Nascimento. É ele quem narra a história, é ele quem nos conta todas aquelas mortes, é ele quem apresenta os dois candidatos à sua substituição, é ele quem pode bradar suas opiniões reacionárias sem freios: os maconheiros da Zona Sul matam criancinhas toda vez que acendem um baseado, os estudantes perdem tempo com leituras que não servem para nada, a Polícia Militar não presta e está 100% corrompida, a ordem é matar até que não sobre nenhuma maçã podre no cesto. Ele acredita piamente em cada uma de suas verdades, talvez por isso parte do público acredite junto, talvez por isso parte da crítica tenha confundido a interpretação do Capitão com a do próprio diretor.
Em relação a Cidade de Deus, nosso mais famoso filme sobre favela, a diferença de ponto de vista é brutal. Se lá temos como narrador o menino incapaz de seguir os passos do irmão, famoso aprendiz de bandido do Trio Ternura, aqui conhecemos a versão daquele que manda, justamente o violento que ninguém tem coragem de seguir, uma espécie muito pior de Zé Pequeno. Enquanto o filme de Fernando Meirelles trouxe o ponto de vista do garoto deslocado, incapaz de aceitar a paisagem que encontra diante de si, Tropa de Elite coloca o espectador por trás do olhar violento e extremamente cônscio de quem defende sem dificuldade suas próprias maldades, corroborando com as atrocidades do sistema. Capitão Nascimento não é o delegado Fleury retratado em Batismo de Sangue, de Helvécio Ratton: diferente daquele monstro todo de branco interpretado por Cássio Gabus Mendes, incapaz de um gesto de bondade, o capitão do Bope se revela cheio de nuanças, o que o torna imensamente mais forte e mais assustador.
Completamente à margem das narrativas cinematográficas comuns no Brasil, alicerçadas numa idéia de melodrama que separa o bem do mal, posicionando cada uma dessas categorias em personagens distintas, formando um mundo dicotômico, José Padilha defende a complexidade do problema do tráfico. Afora o ritmo, angustiante, e as atuações, todas excelentes, o que ele realiza na tela é algo jamais elaborado antes, um certo pensamento trágico, a mistura do bem e do mal dentro de cada uma das criaturas que transitam neste inferno. O olhar de José Padilha sobre a favela, o tráfico e a polícia, temas espinhosos do Brasil contemporâneo, é extremamente original e envolvente justamente porque revela um mundo misturado onde os valores já se diluíram. Montar ONGs no alto da favela não parece ser a solução, a leitura dos clássicos da teoria não costuma adiantar para muita coisa, assim como as mortes todas sob o comando do capitão não conseguem resolver quase nada ao fim da história. Entregar esta compreensão ao público foi o grande salto de Tropa de Elite.
Cronicamente inviável, realmente: só mesmo por aqui um cineasta realiza uma obra de tal complexidade e se torna herói da Veja.
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