17/08/2007

Ninguém lê nada no Brasil

Reconheço, a entrevista do Bernardo Carvalho ao Rascunho, no Paiol Literário, me desnorteou. Até lê-la, nunca me passara pela cabeça que o texto não pertence ao cotidiano do brasileiro. Ou, como ele disse, que "o texto não faz parte da cultura brasileira; faz parte apenas de uma cultura de classe média irrisória no país". Eis, temo, uma verdade inapelável. Sempre ouvi comentários do tipo sobre ficção, livros e tal. Nunca com essa ênfase: o brasileirão (um sujeito urbano, mas medieval, segundo as pesquisas qualitativas) não tolera o texto escrito. Ao ouvir a minha perplexidade sobre o assunto, a Jade me garantiu que muitos já disseram isso antes de Carvalho. Pode ser. Deve ser. De qualquer forma, minha vertigem é total.
Bem, fui ao Spacemelato, blog do meu ex-chefe de clicRBS Fabiano Melato, que hoje edita o Anexo, caderno cultural do jornal joinvillense A Notícia, e encontrei o texto abaixo, postado no dia 6 de julho. É, parece, um "recorte do cotidiano" que caberia bem na tese do Carvalho. É provável que existam milhões de pessoas no Brasil que passam o dia sem ler uma única frase impressa.
***
Eu vi a secretária lendo o jornal (texto escrito pelo editor-executivo de um jornal brasileiro e repassado pelo meu chefe. Ele avisa que não é para desanimar...) Hoje na sala de espera do consultório médico parei para observar a secretária lendo o jornal onde trabalho (Atenção: como escreveu Pessoa, "não há ciência alguma nisto", é apenas uma história real). Foi assim: 1. Começou a folhear de trás para frente. 2. Parou na foto da nossa seção que mostra imagens antigas da cidade e da região 3. Leu de cabo a rabo o anúncio de página inteira de um evento de gastronomia e decoração programado para começar neste sábado 4. Leu o storyboard sobre a tentativa frustrada de assalto a um banco. Afirmo: não leu a matéria. 5. Passou os olhos pelas fotos que os leitores enviam homenageando outras pessoas (filhos, mães, namorados...gente comum). Sorriu. 6. Leu o Obituário e digitou os nomes dos mortos no computador. Conferiu se não havia algum cliente entre os mortos. 7. Desencartou o nosso caderno de Gastronomia e colocou-o sob a mesa, dando a entender que daria boa atenção a ele mais tarde. 8. Deteve-se na programação de cinema e TV. 9. Frustrou minha aposta silenciosa: apenas passou os olhos pela coluna social e foi adiante. A coluna social interessou menos que as fotos dos leitores comuns. 10. Interessou-se, embora superficialmente, pelas matérias da variedades sobre a Frida Kahlo. 11. Parou na tabela (afirmo: na tabela) da matéria sobre as apreensões de mercadorias estragadas em supermercados. Esta não era uma das matérias mais importantes da edição, não era uma aposta nossa. 12. Ignorou Economia, Política e Opinião. 13. Colocou o jornal no cesto de revistas para os pacientes lerem. Sem o Gastronomia.Tempo de leitura: cinco minutos

Um comentário:

  1. Acho que há duas coisas a se pensar na afirmação do Bernardo. A primeira constatação é essa mesmo, que, sei lá, chutando, uns 90% dos brasileiros passam dias, senão meses, sem abrir um livro.

    A outra é a de que a literatura é uma coisa sem importância, se pensarmos, como escreveu W.H. Auden, que uma poesia nunca mudou o mundo. A arte não precisa transformar coletivamente o planeta. O que a poesia (e a prosa, e o cinema, e a música, e as artes plásticas, etc) pode fazer é provocar uma transformação particular em determinado leitor. Depois, cabe a todos os leitores transformados fazer a mudança no mundo. Mas como se lê pouco, muito pouco, o mundo só tende a piorar..

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