Um domingo com Tarzã
Embrulhado em um cobertor, acomodei-me na velha e puída poltrona de sempre, e comecei a reler Tarzã, O Terrível - perdi a conta de quantas leituras já fiz desde que o comprei com os trocados que recebia como mesada
Era um desses domingos de frio e vento. Lá fora, um mundo cinzento, cuja imobilidade só era quebrada vez que outra quando alguém passava encolhido e cabisbaixo pela calçada. Desisti de passear com o cachorro. Ele detesta o frio. Esta é uma das muitas coisas em comum que descobrimos ter em quase dez anos de amistosa convivência.
Trocamos um olhar cúmplice, eu e Dudu. Ele deu um grande bocejo, deixando claro que nem lhe passara pela cabeça encarar aquele pesadelo lá fora; quanto a mim, decidi que o dia seria dedicado à leitura.
É isso mesmo, à leitura. Pertenço a uma das tantas espécies ameaçadas de extinção neste país desgovernado e ignaro, no qual os piores exemplos vêm de cima. Sou um leitor, um bípede onívoro que lê. Creio que, atualmente, nós, os leitores, somos tão escassos quanto os tamanduás-bandeiras, as ararinhas azuis e os jacarandás.
Pois naquela gelada manhã de domingo, enquanto meu cachorro trotava até a área de serviço para "fazer uma boquinha" no seu pote de ração antes de se enrodilhar no tapete da sala para uma soneca, dirigi-me à sala de trabalho em busca de um livro apropriado para um dia tedioso como aquele. Sequer precisei pensar.
Da prateleira dedicada aos livros de puro prazer, aqueles que se preocupam tão-só em contar boas histórias e seduzir o leitor com narrativas competentes capazes de proporcionar-lhe diversão e ação, um volume, preciosa relíquia da minha distante adolescência, saltou-me às mãos.
Embrulhado em um cobertor, acomodei-me na velha e puída poltrona de sempre, e comecei a reler Tarzã, O Terrível, de Edgar Rice Burroughs - perdi a conta de quantas leituras já fiz desde que o comprei com os trocados que recebia como mesada em casa.
Antes de ir em frente, devo dizer-lhes que o volume, que me acompanhou naquele domingo cinéreo e modorrento, foi uma edição de 1959 da sempre lembrada Companhia Editora Nacional, com tradução de Monteiro Lobato, capa e ilustrações em cores de Manoel Victor. Hoje, uma raridade. Um desses livros que não se empresta nem sob tortura.
O norte-americano Edgar Rice Burroughs, depois de se dedicar a vários negócios que não deram certo, resolveu ser escritor aos 36 anos. E deu certo. Escreveu 23 romances de Tarzã, o nobre selvagem branco que, tendo sobrevivido a um naufrágio na costa da África, órfão, foi criado pela macaca Kala. O primeiro dos romances, Tarzã dos Macacos, foi publicado em 1914. Em 1950, quando o autor morreu, milionário, na Califórnia, os livros de Tarzã já tinham vendido mais de 30 milhões de exemplares somente nos Estados Unidos, e estavam traduzidos para 56 idiomas.
O Sr. Burroughs jamais pôs os pés na África, cenário de todas as aventuras de seu "homem-macaco". A lógica e a verossimilhança também não eram seus fortes. Mas quem está interessado nisso em uma narrativa de aventura que incendeia a imaginação, e se abre a todas as possibilidades?
Aventura, para quem não sabe, deriva do Latim - ad ventura, aquilo que está por vir, e que pode apenas ser intuído ou imaginado. Na "pedagogia da aventura" tudo é possível.
Até mesmo aprender a ler sozinho, como fez o "homem macaco". Ou criar uma nova linguagem, o falar das selvas e seus habitantes, como fez o Sr. Burroughs. Os romances de Tarzã editados pela Companhia Editora Nacional, sob a direção de Monteiro Lobato, trazem um glossário desta "linguagem" cheia de sonoridades. Alguns exemplos: balu significa criança ou filhote; kudu, o sol; gimla, crocodilo; kota, tartaruga; numa, leão; tantor, elefante; e histah, serpente.
E foi na companhia de Tarzã que, garoto outra vez, sobrevivi àquele domingo de tédio e frio graças a Edgar Rice Burroghs, um mestre da narrativa de aventuras de todos os tempos.
O vigor animal, a alegria inocente e o heroísmo destemido do seu personagem povoaram os sonhos e a imaginação de várias gerações de garotos no mundo inteiro.
Falo, ao menos, pelos meninos da minha geração, que lotavam as salas de cinema para ver os filmes de Tarzã nas inesquecíveis matinês de programa duplo, quando também aproveitavam para trocar gibis e livros com as suas aventuras.
Tarzã também foi o responsável por muitos braços quebrados, tornozelos torcidos e esfoladuras generalizadas em milhões de meninos no mundo inteiro. Todos aprendiam o grito com que o "homem-macaco" anunciava sua presença na floresta, e todos tentaram imitá-lo escalando árvores e pendurando-se em cordas para vôos a bordo de imaginários cipós de selvas imaginárias. De minha parte, devo-lhe uma cicatriz no supercílio, que até hoje ostento como lembrança daqueles tempos idos e tão prazerosamente vividos.
Acredito que, sem antes passar por autores e livros como Edgar Rice Burroughs e Tarzã, o Terrível, Rafael Sabatini e Capitão Blood, Emílio Salgari e O Corsário Negro, Mayne Reid e Os Negreiros da Jamaica, além de outros livros e autores daquelas excelentes coleções Terramarear e Paratodos da Companhia Editora Nacional, eu não teria chegado a Flaubert e Madame Bovary, a Tolstoi e Guerra e Paz, a Machado de Assis e Dom Casmurro, a Thomas Mann e A Montanha Mágica, a Albert Camus e O Estrangeiro, a Ernest Hemingway e Adeus às Armas. Enfim, não pertenceria hoje à escassa espécie dos leitores.
A Tarzã, "rei dos macacos", e ao afável Sr. Burroughs, meu respeito e gratidão por isso, e pela agradável companhia num domingo de Inverno.
ps. crônica de Mário Pereira publicada na edição da revista Donna do jornal Diário Catarinense, ontem.
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