15/07/2007

O prazer da leitura

Há coisa de um mês, comprei todos os livros de crônicas do Paulo Mendes Campos que a editora Civilização Brasileira reeditou há coisa de uns anos. Decidi que iria ler todos, são seis, no ônibus diário que pego para ir e voltar do trabalho. Convenci-me de que dessa forma eu leria a crônica como ela deve ser lida: durante o dia, no vaivém cotidiano, entre uma caminhada e outra, sem o conforto da cama ou do sofá, lugar bom para ler Zola, não jornal. Comecei bem. O primeiro volume que pus na mochila que carrego comigo diariamente foi Murais de Vinicius e outros perfis, de crônicas que saíram, em sua maioria, na revista Manchete. Na primeira parte, Paulinho faz a ode ao Poetinha: conta causos, situações, tiradas, traça, enfim, um perfil lírico do cantor e compositor diplomata. No texto "Receita de saudade de Vinicius", escreve o cronista: "Poesia é fundamental. É preciso que haja qualquer coisa de louco e de lírico em tudo; qualquer coisa de Rimbaud, qualquer coisa de English poetry. Uma rua com oitis na Gávea ou em Botafogo, uma úmida nostalgia da Ilha do Governador e de King's Road Chelsea. É preciso que seja uma saudade inesperada: um Vinicius que nunca aparece quando promete e às vezes pode aparecer sem prometer. É preciso ter um escocês ao alcance da mão, uma esperança de mundo mais justo". A vontade é sair por aí imitando o estilo de Paulo Mendes Campos. Na faculdade de jornalismo, que eu me lembre, nem um texto sequer do homem nos foi "dado a ler". Dele, ouvimos apenas brisas. Mas pode ser que eu esteja sendo injusto, porque a lembrança às vezes é turva e a memória nem sempre é certeira. Lemos muito Rubem Braga, contudo, graças em especial ao esforço de catequização civilizadora do professor Mário Pereira, que sabe bem que ler o velho Braga é ler a mais brasileira das crônicas. E foi um perfil do cronista de Cachoeiro do Itapemirim que me provocou essa angústia danada de escrever longamente... Pois vinha eu no ônibus lendo com calma e vagar a segunda parte do livro de Paulo Mendes Campos, em que o mineiro esculpe perfis quase irretocáveis de figuras luminosas da cultura brasileira - e lá se vão Di Cavalcanti, Carlos Drummond de Andrade, Djanira, Ari Barroso, Antônio Maria, Sérgio Porto, Lamartine Babo, Antônio Houaiss... Até que chegou a vez do sabiá. Ora, conheço bem a vida de Rubem Braga. Sei do seu silêncio, da sua predileção por pássaros e mato verde, vida no campo; conheço a sua paixão por belas mulheres e sua incapacidade de "viver em matrimônio"; tenho ciência da sua cobertura em Ipanema e das plantas ornamentais e das gaiolas e até do cajueiro que ele plantou no terraço; não ignoro que ele fez-se advogado sem nunca advogar, virou jornalista por acaso e que quando publicou seu primeiro livro, aos vinte e poucos anos, admitiu que já escrevera até aquele momento cerca de duas mil crônicas; e sei de cor a sua frase lapidar: "A minha vida sempre foi orientada pelo fato de eu não pretender ser conde". Acontece que o olhar de poeta transfigura tudo. E eu tinha todo o interesse em saber que figura do Rubem Braga pintou para a posteridade o talento poético de Paulo Mendes Campos. Na vida real, porém, há empecilhos vários - daqueles que a poesia, se contempla, transforma em Arte. Um dos entraves do meu cotidiano de leitor é este: as minhas viagens de ônibus são rápidas demais. Tenho tempo de ler uma ou duas páginas, quase nunca mais de uma crônica. Faltavam três parágrafos para eu terminar o perfil de Rubem Braga quando o ônibus abriu as portas no terminal! E eu tive de descer, pois estava parado justamente diante da porta traseira e era empurrado pela tropa que vinha atrás, sôfrega por ar puro, atrasada para o compromisso. A minha vontade foi sentar no chão e terminar de ler a crônica envolvente. E eu não o fiz. Passei o dia ensimesmado. Que desfecho teria dado Paulo Mendes Campos ao perfil do mestre? Foi o que me perguntei a caminho do serviço, durante o almoço, na parada para o café da tarde, no caminhar apressado de volta ao terminal, para casa. Sentado novamente no ônibus, pude ler: “Falando num grupo de estranhos, é uma lástima, quase ininteligível, e já fui seu intérprete num bar do Pina, em Recife, até o quinto uísque, quando ele passou a ser entendido somente por Deus”. Eis o que eu não sabia sobre o velho Rubem... Senti-me recompensado com essa informação tão precisa e categórica sobre a sua timidez cavalar. Contente por ter encontrado neste parágrafo aquela informação que faz a satisfação maior do leitor: uma afinidade.
Também eu padeço de um dócil constrangimento e gaguejo diante de desconhecidos, mesmo que amigáveis.

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