24/07/2007

Lua azul

Tudo o que os vizinhos sabiam era que Calixto Bartolomeu de Souza tinha mais de 70 anos. Essa informação constava de uns papéis que o novo inquilino tivera de assinar com o síndico ao chegar de mudança ao condomínio. No mais, nada em sua fisionomia se destacava. Nem para Montgomery Clift, nem para Quasímodo: seu aspecto era ordinário. Baixo, caminhava devagar. Ensimesmado, fechava-se em si, alheio ao resto. O lado direito da sua face tinha uma cicatriz comprida. A barba, grisalha como o cabelo encanecido, disfarçava um pouco aquela marca feia. Era só mais um num lugar cheio de muitos. O velho do 104. Descrever Calixto Bartolomeu assim não é dizer tudo dele. O homem sentia sobre os ombros curvados algo mais que o fardo dos anos. Suportava no lombo uma viuvez abrupta, que o rachara ao meio numa madrugada de chuva. (O telefone toca três vezes. Ele desperta, busca os óculos em cima do criado-mudo, puxa o telefone do gancho e recebe a notícia: o avião em que sua mulher e duas das quatro filhas viajavam caiu. Não há qualquer possibilidade de sobreviventes. A companhia aérea não ressarcirá ninguém. Mais notícias, de manhã. “Lamentamos.”) Calixto Bartolomeu, viúvo. Primeiro, vendeu a casa. Preferia mudar-se, viver sob um novo teto, mesmo que apertado, do que ter espaço de sobra para errar por entre lembranças familiares pelo resto da vida. Sabia que de nada adianta mirar o horizonte quando o pôr-do-sol está às costas. Em seguida, já acomodado no condomínio dos vizinhos curiosos, uma quitinete barata no 104, foi ao banco e resolveu o futuro com a sua gerente. Combinou negócios, fechou acertos, estipulou comissões e garantiu o dinheiro que o manteria sem percalços pela vereda que leva da solidão à sepultura. E foi na saída do banco, ao atravessar a avenida movimentada às três da tarde, que se lembrou de Silvia. Calixto Bartolomeu não via a filha mais velha há quase 30 anos. As suas lembranças dela eram vagas e imprecisas. Um sorriso, a voz, a cor dos olhos, quem sabe. O fato é que passava meses sem pensar no nome dela. Ao chegar em casa, passou horas à procura de uma anotação nas agendas telefônicas que não jogara fora ou não se extraviaram na mudança. Em certo momento, ao desconfiar de que talvez não fosse preciso todo aquele esforço para uma ligação que provavelmente redundaria num desgaste tremendo, recostou-se no sofá da sala e imaginou se Silvia já não estaria morta como a mãe e as irmãs. O medo de estar irremediavelmente sozinho foi tão perturbador que ele fuçou as tralhas ainda encaixotadas até encontrar o número que julgou o mais provável. Estava escrito num papel de carta amarelecido. Quando quiserem falar comigo, disquem para o número a seguir, pois é aqui, neste chãozinho da França, que morrerei feliz, e não nessa cidade de merda desse país de merda que é o Brazil. Silvia chorou ao ouvir a notícia. Antes de desligar, disse: – Vou na semana que vem. Não deveria ter deixado a minha terra nunca. Não chegou na outra semana, nem na seguinte, o que proporcionou a Calixto Bartolomeu tempo o bastante para revirar o baú do passado. Quando o núcleo da família Souza comandado por ele era composto por cinco pessoas, Silvia fugiu para a Europa. Ela era a filha mais velha, uma irrequieta e rebelde jovem de 25 anos, com carteira assinada e um salário indecente numa redação de jornal. Mesmo assim, conseguiu reunir dinheiro para viajar. Numa sexta-feira, não voltou para a casa. Durante o fim de semana, não deu nem recado. Na segunda, quando Calixto Bartolomeu e a mulher já tomavam remédios para dormir, ligou e pediu que a esquecessem. A França era linda, não retornaria. Calixto Bartolomeu e a esposa sentiram o baque inicial da perda. Mais por incentivo dele do que por força de vontade dela, porém, terminaram por esquecer a filha. Silvia passou a ser um nome qualquer: a garota que haviam criado esfumara-se na cabeça deles. Restavam duas filhas mais jovens para criar, encaminhar, aposentadorias, netos, bisnetos, uma casa de veraneio para adquirir. O futuro era urgente, Silvia, uma foto. Acontece que a vida da garota não foi fácil fora do Brasil. Ao chegar, cheia de perspectivas radiantes, as coisas pareceram simples. Aprendeu o idioma, passou a trabalhar (ainda no Brasil tirara a carteira internacional de jornalista) e conseguiu alugar um apartamento bacana. Conheceu o país, viajou pelo continente, fez muitas reportagens e entrevistou gente importante. Uma noite, foi apresentada num restaurante a um homem que achou maravilhoso, sedutor e inteligente. Ele a encantou de tal maneira que ela o pediu em casamento no terceiro encontro. Ao rapaz – um italiano para quem deixar a casa dos pais seria dolorido, mas preciso –, Silvia confirmava a fama de que as brasileiras são decididas na vida e sedutoras na cama. Um dia o vento do sucesso de Silvia mudou de direção e entortou de vez a feliz relação a dois. Aos poucos, descobriu tudo. Paolo a traía desde a primeira semana de casamento. O homem tinha compulsão sexual, e quando por fim separou-se de Silvia, foi internado numa clínica da qual não conseguiria mais sair. A infidelidade do marido quebrava os paradigmas até do último canalha. Paolo filmava escondido as transas com Silvia e as exibia aos amigos e amigas em festas secretas. Dizia para os colegas: – Não há mulher mais vagabunda que a brasileira. Só, divorciada depois de 20 anos de um casamento sem filhos (a palavra herdeiro causava urticária em Paolo), Silvia caiu de cama, com depressão. A convalescência difícil e demorada arrancou-lhe o emprego, as amizades e a beleza. A dor da humilhação a enterrou num lodo de tristeza, e somente os remédios de tarja preta puderam lhe devolver alguma vivacidade. Na rua, nem os mendigos a olhavam com gula. E assim correu a sua existência melancólica até que o telefone tocou numa sexta-feira de frio intenso. Silvia decidiu atender depois de pensar dez vezes. Quando o fez, foi para chorar pela perda do que nem era mais seu. Semanas depois, fechou pela última vez a porta do apartamento. Um corretor o venderia. Ela estava voltando para casa. A chegada de Silvia mudou a vida de Calixto Bartolomeu de Souza e a sua própria. Após muitos anos, reencontravam-se. Entre os vizinhos começou a circular um feixe de boatos disparatados, até que o síndico reuniu coragem e abordou o velho do 104 no corredor, quando este ia buscar o jornal na caixa do correio. Esclareceu-se o mistério: a senhora que estava morando com ele era Silvia, sua filha, que retornara da Europa depois de 30 anos fora do Brasil. O bochicho, natural entre uma gente tão próxima, que mora uma em cima da cabeça da outra, cessou. Os condôminos passaram então a acompanhar com candura aquela transformação do velho calado e sua filha. Era visível que a mulher que chegara com o aspecto de uma cinqüentona em ruínas já andava mais robusta, recuperando a saúde e a formosura. Calixto Bartolomeu agora cumprimentava a todos com a mão, sorrindo. Era mesmo admirável vê-los renovados e sãos. A faxineira dos dois cochichava pela vizinhança que até dentro de casa o ambiente melhorara. Havia vasos com plantas e flores na sala, que agora também tinha cortina e quadros pendurados nas paredes. Em cima da mesa de centro, cinzeiros de cristal, bibelôs e outros adornos. No corredor, uma estante abastecida de bons livros, já que Calixto Bartolomeu desde criança cultivara o hábito de ler os clássicos. O banheiro era mantido limpo e perfumado. A cozinha ganhara eletrodomésticos e um forno elétrico. Silvia cozinhava muito bem, e preparava jantares especiais às sextas-feiras. A quitinete do viúvo se transformara num confortável lar de família. Pelo menos três vezes por semana, Silvia recolhia-se mais cedo, por volta das oito da noite. Era quando Calixto Bartolomeu ia ao clube do bairro, de que se tornara sócio desde a chegada da filha. Fazia uma sauna, bebia algumas cervejas, tomava um bom banho e retornava. Chegava em casa pontualmente às onze horas, após três de ausência. Sem acender a luz, encaminhava-se para o quarto. No meio do caminho, despia-se. Deitada, esparramada na cama de casal, Silvia o esperava nua, sob os lençóis perfumados. Trêmula e ansiosa de felicidade. Sabia que a pílula azul não falhava jamais. O vizinho do 103 às vezes ouvia gemidos. Mas ninguém acreditava nele. ps. conto que participou da seleção para a Oficina de Contos que está em curso no Portal Literal. * título dado por Jade Martins Lenhart.

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