A minha ambição ainda será subir no telhado para ver o pôr-do-sol de mãos dadas com ela, abraçá-la e beijá-la no pescoço e dizer veja só que sem graça é o cair da tarde quando não se sabe se a vida vai valer a pena para sempre. E então abrir a garrafa de vinho com um sonoro ploft, fumar um cigarro místico que nos devolva a doce melancolia de ser por inteiro um ser humano pálido e brindar a toda vigarice humanitária de que os malditos engravatados se orgulham e que deixa as pessoas educadas rubras de constrangimento. Esperaríamos a noite descer com a suavidade que o escritor lhe atribuiu conversando sobre os fatos miúdos de nossa existência ordinária. Uma banana para a ignorância, os chatos e vazios, essa gente que lê três ou quatro livros por ano, que não tem a mínima sensibilidade, ri de videocassetadas, põe música no celular, bebe cerveja sem álcool e vinho suave, zomba em grupo das esquisitices e excentricidades de quem sente mais e melhor que elas, esse pessoal das exatas, das fechadas, dos dogmas e burrocracias, a turma que fala alto, cochicha assuntos familiares com estranhos, expõe a vida com a facilidade de um exibicionista de praça pública, promove linchamento moral e, em grupo, sente prazer em constranger os outros com piadas chulas, diz que não entende Woody Allen e é claque do Casseta e Planeta, acha que a vida é um palco, um picadeiro, um ato de tragédia ou um desfecho de comédia bufa, não confia em políticos, faz pouco caso de causas justas, considera inteligência um ultraje e se recusa a aceitar que a experiência é o nome dado ao acúmulo de nossos erros, como percebeu o poeta. Então faríamos amor como da última vez, quando a vida fremiu e suou e pulsou como deve fazer e o futuro nos pareceu aconchegante feito uma biblioteca aquecida. Dormir exausto sob uma chuva de estrelas, não existe morte provisória mais agradável.
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