Chuva na praia
A chuva começou no fim da manhã. A areia da praia primeiro desprendeu aroma, depois mudou de cor, por fim enrijeceu. Era uma chuva forte, que ensaiava cair desde muito antes de quando precipitou de fato – o que fez a maioria dos banhistas recolher seus pertences, chamar familiares, reunir todo mundo e dar no pé antes do toró. Eu fiquei; de dentro da água queria assistir a todo mundo ir embora e a praia ficar livre, ser só minha. Por isso, quando o vento virou de repente, eu vibrei; quando o tempo fechou de vez, eu sorri. Acompanhar uma tempestade chegar, de dentro da água, não é recomendável a ninguém, posto que arriscado, perigoso. Mas que é bonito, é. E faz pensar.
"O Verão vai terminando, o Carnaval já passou, quem sabe não são as águas de março que, antes do tempo, caem pesadas sobre a minha cabeça? Tom Jobim, lá se vão dez anos sem ti... De qualquer forma, isso tudo deve ter alguma coisa a ver com o aquecimento global, esse fenômeno mau que nós, seres humanos de agora, engendramos para a geração de nossos netos. Já estaremos noutra quando Florianópolis submergir e só restar as torres de uma Ponte Hercílio Luz (quiçá restaurada) para fora do oceano Atlântico. Os florianopolitanos, quem diria, viverão todos em Biguaçu, ó grande Salim Miguel!"
É claro que eu não cogitava esse tipo de pensamento meio funesto enquanto observava, entre um mergulho e outro, aquela multidão de banhistas fugir da chuva. O que eu pensava, creio, não interessa ao leitor. Mas como é mister do cronista matutar em voz alta, não posso deixar de reconhecer que eu dizia comigo mesmo algumas dessas verdades em que às vezes só a gente acredita, por só existirem na nossa cabeça, alheias em tudo à realidade concreta que nos rodeia. O que não é ruim, como pode parecer aos mais racionais: por algum mistério, o cronista é o único idealista sensato.
Está mesmo na hora de ir embora, cambada. Grande parte de vocês passou aqui dezembro, muitos enfiaram pela estrada de janeiro após vencer a curva do Ano Novo. Fevereiro chegou, o calor persistiu, os transatlânticos por aqui aportaram, os turistas aproveitaram, você conheceu uma pessoa bacana, fez amigos, teve um romance de verão – sempre furtivo, descompromissado –, pulou e dançou, queimou-se mais do que devia, tomou banho de mar à vontade, esqueceu o trabalho, o patrão, compromissos, viu que Florianópolis é um lugar lindo apesar do nome, conseguiu a muito custo comprar uma camiseta da Feijoada do Cacau, bailou fantasiado no Ilha em Gala, curtiu os desfiles dos blocos de sujo, das escolas de samba, riu à beca no Pop Gay... O diabo é que depois disso tudo, cambada, o ano começa mesmo. Então é chegada a hora de voltar. Uns para a cidade onde moram, outros para a rotina diária local.
Para os primeiros, boa viagem; para os segundos, boa sorte.
Flip, gostei bastante do blog, vou ler mais em casa. Fazia tempo que queria entrar, mas como raramente acesso o messenger em casa, sempre pensava: depois preciso anotar o endereço...
ResponderExcluirBeijos para vcs dois.
Procurei hoje (só pude hoje) pelo Seu Lima, mas ele não estava lá. Tem algum dia específico para ele estar por ali, ou horário?
ResponderExcluirBeijo,
Obrigado, Rafa! Beijo pra você também!
ResponderExcluirDaise, apareça às quartas ou sextas-feiras. Seu Lima estará lá. :) beijo