24/01/2007
Eu, vendedor!?!
A moça alisa a capa de um exemplar de O diário de Anne Frank, olha para mim e diz:
– Este livro é lindo.
Eu olho o volume: está feio, sujo, puído. Mas, enfim, atino:
– É verdade... E pelo estado deve estar barato.
A moça me dá um sorriso bonito em resposta, como quem diz "vendedor, hein". Ela abre e confere: R$ 5. Bate com a unha comprida do dedo indicador da mão direita sobre o preço escrito a lápis e diz:
– É baratinho, tu tens razão, mas esse eu já tenho.
Sorrio também, sem jeito. Ainda faltam cinco minutos...
***
O bom Lima que me perdoe, mas vendedor é essencial. E eu não sou um vendedor. Não passo de um leitor de livros velhos, um cliente com algum dinheiro e faro para livros que julgo bons, talvez. Mas não um eloqüente, um sedutor. Pois naquela quarta-feira de sol estúpido, às 13h, estávamos de papo furado quando, de supetão, veio o pedido:
– Você senta aqui nesse banquinho e toma conta aí para mim, por favor, enquanto eu vou logo ali almoçar, fazer um lanchinho, são só cinco minutos, por favor?
Sem ao menos responder sim, recebo um tapinha amigo nas costas. O Lima se dirige à Padaria Foguinho, e eu vejo-me à frente de uma centena de discos e livros novos e velhos, ao som de um antiquado Julio Iglesias, que a vitrola incansável executa...
Uma quentura de fazer mal, largo da Catedral Metropolitana, e eu de vendedor de livros! Um cliente de terno e gravata se aproxima. Minha testa está encharcada com o suor da responsabilidade. A lona que me cobre e aos livros e discos parece expirar calor. Qu fria.
– Boa tarde...
***
Sou cliente do Lima há meses. Mas não o conheço, o senhor batuta, gente fina e honesta, assim por cima, só de vista, oi e tchau. A nossa aproximação foi, claro, a literatura: eu porque quero lê-la inteira, ele por querer vendê-la sempre. Brinco, mas o Lima é lido. Ficamos "chapas" ao fazermos negócios. Ele esteve em minha casa, numa manhã de sábado. Comprou 30 livros de uma biblioteca de uns 100 exemplares que eu e a Jade estamos vendendo, porque repetidos. Escolheu as três dezenas a dedo, comparou títulos, leu orelhas, conferiu traduções e autores, viu fotos do casamento, contemplou as estantes fortificadas de volumes e raridades, enfim, congregamos, dois leitores que somos.
Com o porta-malas da sua Ipanema aberto, estamos os dois diante do edifício onde moro. Ele abastece o carro com as sacolas de livros. Olha a Ilha de Santa Catarina lá do outro lado do mar. O céu está de um azul com nuvens à Monet. A palmeira do quintal do edifício balança ao vento. Trocamos um aperto de mãos.
– Que bela rua, essa. Que bom lugar para morar. Parabéns, garoto! E não vende o resto não, que eu acho que um dia eu venho aqui buscar por um precinho melhor...
***
O engravatado ajeita os óculos e mexe nos livros. Não respondeu ao meu boa tarde. Parece estar à caça de um título. Vasculha a "ala" dos livros mais novos, que são vendidos por preço mais alto. A moça conhecedora das agruras da menina Anne Frank estava na parte dos livros mais baratinhos. Já foi embora. Estamos eu e o que não vive uma boa tarde. Sua rispidez (que ele demonstra também no manuseio dos livros, revirando-os) é de uma evidência solar.
Encostado à parede do Besc, à sombra, portanto, postado ao lado de um vendedor de apostilas para concursos públicos, um senhor promove um inacreditável dueto com o velho Iglesias: canta em voz alta, feliz da vida.
– Quanto é esse livro?
O homem me mostra a capa de um livro de Zibia Gaspareto.
– O preço está dentro do livro.Respondo, e me sinto uma besta. Quer dizer que "o preço está dentro do livro"?
– Ah...
O homem confere, fecha o livro e vai embora.
Ufa.
***
No sábado da nossa negociação, o Lima me conta um segredo:
– Garoto, Zibia eu compro tudo, ouviu? Tudo, porque vende pra chuchu...
***
Outra moça aparece. Folheia os livros da parte em "promoção". Vira-se para me fazer uma pergunta mas é interrompida:
– O que deseja, minha garota?
É o Lima, que voltou do seu almoço na Padaria Foguinho. Eu suspiro de alívio: e se alguém tivesse tentado furtar um livro, e se me pedissem desconto, se me exigissem credenciais, sei eu? O Lima está de volta.
– Muito obrigado, garoto. Viu só, não foram nem cinco minutinhos...
Ele ri alto. O disco de Julio Iglesias termina. O senhor do dueto, percebe a interrupção, olha o relógio e vai embora, de volta á rotina, já é uma 13h10min.
– De nada, Lima. E não esqueça de me ligar, se quiser os livros...
Quando estou de saída, reparo, na parte mais "cara", um livro de Eduardo Galeano. Eu olho de perto e o reconheço: era meu.
Quase vendo os meus livros duas vezes.
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deu vontade de conhecer esse senhor lima.
ResponderExcluirele é muito legal mesmo. e, sem ironia, tem muitos bons livro... :)
ResponderExcluirainda não consegui passar lá, espero que hoje à tarde eu possa. vou 'pescar' um dos bons por lá.
ResponderExcluir:)
Adorei passar aqui!
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