Um pouco de paz?
Apenas na segunda semana de janeiro a família decidiu sair para jantar. "Família" é quase um eufemismo, o certo seria dizer "tropa". A casa estava cheia. O dono, que a princípio recebeu todos com boa vontade, já andava arrependido. Logo depois do Reveillon, desembarcou na sua casa gente de que nem se lembrava – parentes longínquos, de cidades distantes, e numerosos. Tinha criança dormindo na sala... Enfim.
Os dias correram e os visitantes não se pouparam. Ajudaram na troca das telhas que quebraram com o vento Sul, na limpeza dos quartos e dos banheiros, no corte da grama, carregando as cadeiras de praia e guarda-sóis, no preparo do churrasco. Mesmo assim, o dono da casa cansara-se. E achou que saindo para jantar teria uma noite tranqüila.
O povaréu chegou assustando os garçons. A "tropa" só foi recepcionada depois de cinco minutos de espera. O restaurante estava cheio. Após juntarem três mesas num canto, acomodaram-se. Dois garçons tiveram de tirar os pedidos. A gritaria das crianças se juntou à barafunda da "música ao vivo" (um sujeito com um violão amplificado e outro com um teclado "multiuso") e ao barulho das outras mesas, inúmeras e populosas.
Minutos depois, um dos garçons voltou, intrigado. Dirigiu-se ao dono da casa:
– O senhor tem certeza de que Mojito existe no nosso cardápio?
O dono da casa fez só um gesto: abriu o menu e mostrou, com o dedo, na seção "drinks", a palavra Mojito. O garçom, constrangido, desculpou-se e voltou ao trabalho.
Outra longa e demorada espera depois, os pratos começaram a baixar na mesa. As surpresas foram muitas: em vez de grelhado o peixe veio frito, no lugar de uma porção de arroz serviram uma de salada de batata, o camarão ao bafo virou ao alho e óleo, e as casquinhas de siri simplesmente não trouxeram. Com uma rápida troca de olhares, os adultos decidiram que ninguém iria reclamar. O jantar seguiu desse jeito...
Com todos satisfeitos (ninguém pediria sobremesa, para não arriscar), o dono da casa aproveitou que um garçom distraído passava perto da mesa e pediu a conta, por favor.
– Fecha a 53 aí para mim! – gritou o garçom ao caixa, que respondeu, também aos gritos:
– Cinqüenta e três não existe, meu amigo. Confere lá.
O dono da casa de praia, que ouviu isso tudo, gelou na sua cadeira de palhinha. Quando o garçom voltou a ele para conferir o número da mesa, a coisa piorou. Não havia número. Na confusão de juntar mesas, os garçons não decidiram que número seria a da mesa nova, e os pedidos foram feitos em nome de várias mesas. O caixa levou duas horas para encontrar os pedidos correspondentes, checar o que foi ou não servido etc.
A família voltou para a casa de praia cansada e decidida a não sair mais para comer fora. Para completar a noite, o dono da casa passou mal de madrugada, vomitou as tripas. "Que inferno", pensava ele, às quatro da manhã, com a cabeça abaixada em cima da patente.
19/01/2007
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